Fuqua em ebulição, sob o fogo cerrado de Denzel Washington

Novo capítulo de 'O Protetor', uma franquia derivada da TV, confirma a excelência autoral do diretor de sucessos como 'Dia de Treinamento', apesar de seus deslizes de roteiro

por

14 de agosto de 2018

Denzel Washinton The Equalizer 2 O Protetor 2 equalizer-2-600x450 7777 777 Denzel Washinton The Equalizer 2 O Protetor 2

Rodrigo Fonseca
Soturno em sua representação das relações sociais, mas taquicárdico na costura de tiroteios, brigas e perseguições, O Protetor 2” espelha a maturidade narrativa de Antoine Fuqua como cineasta, numa linha evolutiva pela estrada da autoralidade. À frente desta produção de US$ 62 milhões está um inspirado Denzel Washington, que injeta carisma na pele de um ex-fuzileiro (promovido a espião, mas afastado da ativa por traumas do passado) no segundo capítulo desta franquia iniciada em 2014. Franquia esta derivada da série de TV “The Equalizer”, exibida de 1985 a 89 pela Rede CBS, com o inglês Edward Woodward (1930-2009) no papel central. Porém, a estrela mais reluzente aqui não é Denzel e sim o vasto ferramental cinemático de Fuqua. O diretor é famoso por sucessos como “Dia de Treinamento” (2001), pelo qual seu astro (e amigão do peito) Mr. Washington conquistou o Oscar de Melhor Ator. Há numerosas falhas de roteiro na “parte dois” das aventuras do ex-agente (hoje motorista da Über) Robert McCall, como a ausência de explicações minimamente convincentes acerca dos infinitos dividendos gastos pelo herói em sua campanha contra o Mal. Mas, no modo azeitado como Fuqua conduz sequências calcadas em violência e adrenalina, os furos do longa-metragem fazem apenas cócegas na Lógica, sem deixar danos mais graves no Prazer… prazer deixado pela marca autoral deste realizador americano de 53 anos – uma década mais jovem do que Denzel.

Há 20 anos, no precioso “Assassinos Substitutos” (1998), com Mira Sorvino e Chow Yun-Fat, Fuqua – então egresso de videoclipes com Toni Braxton e Prince – iniciou, nas telonas, uma linhagem de crônicas sociais sintonizadas com a criminalidade nas ruas dos Estados Unidos. Embora riquíssima em virtuose técnica no domínio na cartilha da ação, sua obra impressiona mais por seu timbre sociológico, ao abrir debates éticos sobre a exclusão, empoderando heróis negros e asiáticos. O drama policial “Atraídos Pelo Crime”, exibido no Festival de Veneza de 2009, é seu trabalho mais ousado e minimalista. Já um “Rei Arthur” com Clive Owen, de 2004, foi seu momento mais pop, e mais subestimado. Também existe uma centelha pop fervilhante em seu remake de “Sete Homens e Um Destino”, lançado em 2016. Porém, mesmo em seus trabalhos de tom ploc há discussão política em primeiro plano. Como se percebe em O Protetor 2, no qual ele faz uma mistura de 007 com Spike Lee soar equilibrada… e emocionante.

Com uma bilheteria estimada em US$ 99 milhões, desde sua estreia nos EUA, no dia 20 de julho, The Equalizer 2 – continuação melhorada dos primeiros feitos de McCall, que arrecadaram US$ 192 milhões nos cinemas, no filme original, há quatro anos – estreia nesta quinta, 16 de agosto, no Brasil, apostando no perfil heroico de Denzel. Um dos maiores atores de Hollywood, ele esbanja sobriedade na pele de um James Bond aposentado, que forjou a própria morte após uma missão equivocada sob as ordens da Casa Branca. Não se explica muito bem o que houve com McCall na ocasião, menos ainda se explica sobre como ele consegue viajar o mundo todo ajudando pessoas. No primeiro filme, ele se concentrava em mulheres agredidas e escravas brancas. Agora, seu escopo ampliou-se e inclui imigrantes vítimas de pichadores e adolescentes aliciados pelo tráfico, como o jovem Miles (Ashton Sanders, do oscarizado “Moonlight”). Mas, entre uma “bondade” e outra, ele luta contra as sequelas de uma conspiração que levou sua melhor amiga e ex-chefe (Melissa Leo) à morte, num assassinato disfarçado de latrocínio.

Tal disfarce é o estopim de uma cruzada de vingança disfarçada de investigação, que traz uma linha de espionagem para o enredo central: um homem sem lastro, nem passado, gasta sua mira infalível num esforço para equalizar desigualdades. É uma premissa coesa com o devir cronista de Fuqua. Mais do que fazer um espetáculo de heroísmo clássico, seu novo filme se empenha para elencar males sociais e morais dos Estados Unidos e leva-los à execução sob a lâmina (de pólvora) do samurai McCall, fazendo de Denzel um Toshiro Mifune pós-moderno. Falta mais acabamento ao roteiro de Richard Wenk (“Os Mercenários 2”), porém, mesmo sem as aparas, Fuqua põe seu bonde autoral nos trilhos, a toda velocidade.

Na versão brasileira, Guilherme Briggs dubla Denzel com refinamento.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4