Gabriel e a Montanha

Encenação de um reencontro

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05 de outubro de 2017

O gesto do economista carioca Gabriel Buchmann de, antes de iniciar seu doutorado na UCLA, tirar um ano sabático para conhecer a realidade de pobreza, mas também a natureza, da África, remete a outros personagens cinematográficos recentes dotados de um impulso aventureiro e, de certa forma, anti-establishment: Christopher McCandless e Aron Ralston, protagonistas, respectivamente, de Na Natureza Selvagem (2007) e 127 Horas (2010). Mas, ao contrário dos diretores Sean Penn e Danny Boyle, Fellipe Gamarano Barbosa faz de Gabriel e a Montanha um filme calmo, silencioso, que busca se conectar ao máximo com a experiência de Buchmann em quatro países africanos (Quênia, Tanzânia, Zâmbia e Malawi). Permanece distante, portanto, da vontade de ser inspirador de Na Natureza Selvagem e da histeria visual e narrativa de 127 Horas.

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Uma das chaves para a compreensão de Gabriel e a Montanha está nessa busca por conexão de Barbosa com o protagonista. Ele e Buchmann eram amigos de infância, estudaram juntos até o início da faculdade e se afastaram na vida adulta, mantendo, no entanto, carinho mútuo nos anos que se seguiram. Narrar os últimos setenta dias de vida do segundo é, portanto, um desafio pessoal bastante doloroso para o primeiro, tomado como uma chance de se despedir de alguém querido que não existe mais. Esse afeto do diretor pelo amigo hoje morto contamina todo o filme, inclusive, por vezes, prejudicando seu ritmo. Há uma excessiva necessidade de acompanhar cada passo de Buchmann, cada detalhe de suas viagens, o que torna Gabriel e a Montanha talvez um pouco longo demais. Mas se trata de necessidade compreensível, espécie de tentativa de compensação pela ausência irremediável, de encenação de um reencontro de fato impossível.

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É interessante notar que Barbosa consegue imprimir complexidade nesse movimento de transformação do amigo em personagem cinematográfico, escapando da hagiografia que Gabriel e a Montanha, por ser uma homenagem, poderia se tornar – não à toa, é justamente nos depoimentos em off, emulando um documentário, daqueles que cruzaram o caminho de Buchmann, elemento da narrativa com mais cara de tributo puro e simples, que o filme encontra seu ponto de maior fraqueza. João Pedro Zappa interpreta o economista como um sujeito carismático e verdadeiramente apaixonado pela jornada que está empreendendo, mas, ao mesmo tempo, irresponsável e arrogante na crença em sua capacidade de conviver harmonicamente com a implacabilidade da natureza (nesse aspecto, aliás, ele está bem próximo de McCandless e Ralston).

Nasce daí uma curiosa semelhança com Casa Grande (2014), filme anterior do diretor, que, a princípio, não poderia ser mais oposto a Gabriel e a Montanha, já que organizado a partir do espaço de uma residência familiar no Rio de Janeiro, de onde os personagens (e a câmera) pouco saem. No entanto, ambos são protagonizados por jovens de classe média alta, inquietos com sua posição social e estabelecendo, por isso, contato com a alteridade – os empregados domésticos e a estudante de escola pública no primeiro, os africanos em Gabriel e a Montanha. Barbosa enxerga tais protagonistas com generosidade, encontra sinceridade nesse seu gesto. Mas não apaga dos filmes – talvez inconscientemente, já que socialmente identificado com os dois jovens – as tensões que marcam essas relações. Ainda que a exerçam em espaços distintos, Jean (Thales Cavalcanti), o garoto de Casa Grande, e Buchmann possuem o mesmo tipo de arrogância, que os leva a tratar a pobreza como locus de autodescoberta, chegando a acreditar, ingenuamente, na possibilidade de se tornarem o Outro.


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