Godard dissipa a névoa londrina

Já confirmado pela Mostra de SP, 'Imagem e palavra', o novo e premiado trabalho do realizador de 'Acossado', abre debate semiológico no BFI - London Film Festival

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16 de outubro de 2018

Jean _luc Godard

Rodrigo Fonseca
Ainda capaz de acossar a imaginação dos cinéfilos, aos 87 anos, o mito franco-suíço Jean-Luc Godard promete roubar o BFI – London Film Festival nesta terça, com “Le livre d’image”, pelo qual ganhou uma Palma de Ouro Honorária em Cannes, em maio deste ano. “Imagem e palavra” é o título no Brasil da produção, já confirmada pela Mostra de São Paulo (18 a 31 de outubro), No longa, Godard questiona as representações mais acusatórias do Estado Islâmico e confronta o onipresente imperialismo do cinema americano. Enfim, é o que ele sempre faz, desde “Acossado” (1960): é, sim, filme; é, sim, semiologia; mas é, antes de tudo, um Godard, ave rara da história da cultura.
“As filmagens deste projeto não foram ação, foram arquivos: preciso do passado para falar do futuro. Falam por ai que o cinema acabou, mas teve um produtor que quis me bancar e há um festival como Cannes interessado em me exibir. Talvez a presença deste filme aqui seja apenas ação publicitaria, pois eu não sei se tem lugar para ele, e para mim, nas salas de exibição. Mas, na minha idade, o que me interessa é falar do que eu observo nos processos sociais: palavras não são um sinônimo de linguagem, pois linguagem é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira. Eu faço filmes porque ainda tenho coragem”, disse, em Cannes, por Facetime, o mais emblemático, criativo e polêmico representante do revolucionário movimento chamado Nouvelle Vague.

Godard no Facetime com Cannes

Godard no Facetime com Cannes

Pigarreando e tossindo sem parar, ele era visto pela Croisette de um pequeno celular, colocado diante de um microfone no qual cada jornalista fazia uma pergunta. “O que me desaponta é ver tanta gente da Russia, do Japão, da Italia falando Inglês, em um evento destes, na França, em vez de falar em seu idioma original. Isso me faz pensar numa frase que li num livro: ‘as democracias modernas tornaram a política uma pratica do pensamento separada das demais áreas do saber’. Por isso o totalitarismo está ai e ele pode se manifestar até na ficção, com a escolha de um ator que simbolize certos valores totalitários”.

Fora do London Film Festival, o British Film Institute promove a comédia indiana, “102 and out”, que já faturou cerca de US$ 12 milhões em circuitos alternativos do Reino Unido e da Ásia, mas que congrega milhares de pagantes em seu país de origem. Dois mitos de Bollywood, a indústria de melodramas musicais da Índia, juntam-se em uma trama sobre conflitos geracionais: Rishi Kapoor, de 66 anos, e o lendário Amitabh Bachchan, hoje com 76 anos.

Sob a direção de Umesh Shukla, o veteraníssimo muso da Índia vive Dattatraya, um homem que chegou aos 102 anos com a vitalidade de um garoto e cujo sonho é vencer o campeonato de homem mais velho do mundo. Um chinês de 120 poucos anos é o favorito. Para vencer, ele precisa garantir que todos os seus dilemas estejam resolvidos. Seu maior desafio é ajudar seu filho de 75 anos, o sisudo professor de Matemática Babulal (papel de Kapoor) a reaprender a ser feliz, após a perda de sua mulher e o sumiço de seu filho interesseiro. As trabalhadas de Dattatraya para arrancar um sorriso de seu “garotão” septuagenário arranca gargalhadas da plateia.

"102 not out": Bollywood

“102 not out”: lendas de Bollywood em alta em Londres

O Festival de Londres termina no dia 21, com a entrega dos prêmios de Melhor Filme de Ficção, Melhor Documentário e Melhor Longa de Cineasta Estreante, cujos favoritos, até agora, são, respectivamente, o policial “Destroyer”, estrelado por uma Nicole Kidman em estado de graça; “Teatro de guerra”, com memórias reais do conflito das Ilhas Malvinas sob a ótica argentina; e o drama “Wildlife”, que marca a primeira incursão do ator Paul Dano na direção.  A atração deencerramento é “Stan & Ollie”, de Jon S. Baird, sobre os feitos da dupla O Gordo e O Magro, interpretada por John C. Reilly (como Oliver Hardy) e Steve Coogan (como Stan Laurel).