19° Goiânia Mostra Curtas: Debate Sobre Censura e Coprodução Internacional

Com cineasta Fernando Coimbra, produtora Rachel Ellis e a atriz/diretora homenageada Helena Ignez

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09 de outubro de 2019

Começaram os debates na 19° Goiânia Mostra Curta e com os ilustres convidados: a produtora Rachel Ellis, o diretor Fernando Coimbra e a atriz e diretora homenageada na noite anterior Helena Ignez! Mediação pelo produtor Ivan Mello.

Intro em vídeo de cada fala dos membros da mesa:

Após a introdução de cada um:

Helena Ignez continua explicando que o cinema brasileiro já foi sucesso de bilheteria, como na chanchada. Grandes diretores de arte, grandes fotógrafos. Um tema acessível, musical… Em SP, Mazzaropi… O Cinema Novo e Marginal ainda tiveram alguns grandes sucessos também. “Terra em Transe” mesmo censurado teve uma enorme bilheteria. “O Bandido da Luz Vermelha” teve mais de 3 milhões de espectadores na primeira semana. “A Mulher de Todos” teve um público ainda maior. Eles conseguiram viver da renda por 5 anos destes filmes.

Já o momento atual (pelo menos se pode dizer isso para a cultura) é pior que a Ditadura porque pelo menos os militares gostavam de cinema e fizeram a Embrafilmes. Agora há um desmonte específico da arte e da cultura, da reflexão. O nosso cinema é um cinema de autor.

Pergunta de Ivan: O cinema de autor é nosso diferencial? Ainda mais quando os Festivais europeus estavam reconhecendo isso…. Como eles estão vendo nosso desmonte?

Helena pede para fazer a diferença de não nos balizarmos pelo olhar do Europeu e tenhamos nosso próprio olhar.

Rachel acrescenta que o trabalho dela com o diretor Gabriel Marcaro sempre focaram em projetos fora do comum, não previsível. E que tenha um olhar da sociedade original. E talvez isso ande sendo desmontado. Não tem nenhuma produtora do Brasil que não sinta medo de não receber os valores devidos por uma produção, de um edital, ou que recebam a negativa de produção devido a algum tema censurado. Se não conseguirmos fazer de algum modo, procuramos maneiras alternativas, coproduções internacionais etc… A gente sempre teve um diferencial de fazer de maneira muito mais barata, que não é perfeita, mas que agora precisaremos dessa capacidade mais do que nunca. Sobre como a Europa vê o cinema brasileiro….bem…..o problema do público nacional de seu próprio cinema é um problema no mundo inteiro. Há mudanças com a Netflix e etc… Mas é uma questão de formação de público. Dá pra comparar com países no mundo que tem o costume de ver seu próprio cinema e de outros países e culturas. Andava acontecendo trabalho em Escolas públicas. Mas fomento demora anos e anos. Como exibir em horários que as pessoas podem ver, o que o cinema brasileiro é colocado só em um horário e não fica mais do que uma semana, impossibilitando o público de ver. Outro problema é o custo do cinema. É muito caro.

E sobre o que a Europa espera do Brasil, a própria Rachel diz que não conhece diretor que faça filme pra “europeu ver”… Evidente que o filme pronto tem estratégias pra fazer chegar a alguns lugares… Mas em relação ao olhar europeu sobre nós, de fato os europeus têm alguma expectativa, pois não conseguem encaixar nosso cinema direito, e não é bem o que eles esperam, o que beneficia algumas obras que entram no imaginário do Europeu sobre o que eles querem ver no Brasil. Mas não podemos deixar influenciar o que estamos fazendo.

Perguntados sobre a censura e como os temas atualmente censurados eram um de nossos diferenciais no mundo, como os olhares plurais de questões afirmativas, como de gênero, raça, classe, territorialidade e sexualidade, Helena começa respondendo que do ponto de vista da criação essa pressão é inócua. Vamos seguir em frente com nossa resistência. Agora pode ser algo um pouco suicida procurar financiamento público etc…aconteceu nos anos 50, como cineastas ficando endividados, etc

Por outro lado, sob outros aspectos, Helena desafia o que pode ser censurado e o que esse governo acha perigoso… Então, Helena fala do orgasmo, o orgasmo total, feminino, como algo político! Terá censura? O nome deste seu próximo filme será “Uma Porta para o Infinito”. Que é o que importa para ela, pois ainda não conhece o infinito — explica a diretora/atriz.

Rachel ressalta que ainda havia até o ano passado suporte para a produtora não ser julgada apenas por bilheteria… mas também por sucesso internacional, em Festivais e etc… E ganhava pontos para uma linha de financiamento. Incrível maneira de se chegar ao cinema que não seja apenas por bilheteria.
Sobre temas censurados. Todos os filmes de Rachel com Mascaro são feitos sem concessões. Ele jamais aceitaria retirar cenas e etc. Como em “Boi Neon” que alguns financiadores criaram caso com a cena em que o personagem urinava contra o vento e ele não aceitou tirar.

Todo mundo faz roteiro para captar recursos. Com projeto, com sinopse etc para ser aprovado no edital, de acordo com o perfil, e depois o produtor adaptava. Isso vai ter de ser ainda mais criativo hoje em dia. Ex. “Sol Alegria”, de Tavinho e Mariah Teixeira, a administração pública não quis dar o CPB, o que poderia arriscar o filme e o que foi gasto no filme, exigindo devolver os recursos, como se o filme não tivesse sido feito. E teremos de ser ainda mais criativos para passar por essas questões sem censura. Mas mesmo ganhando o edital, há de se pensar na logística de se fazer e não ser impedido mais para frente. Maior medo agora nem é não conseguir captar, e sim a forma como pode ser visto ou censurado depois de feito. Rachel preferiria fazer com metade do orçamento e de forma livre do que ficar atada à censura (orçamento independente neste sentido é sem verba pública).

Fernando acrescenta que eles querem acabar com essa geração “empoderada”, e aí a censura opera de formas indiretas para fingir que não é censura. Você não sabe qual o jogo que estão fazendo… E o sucesso do Brasil lá fora deu visibilidade sobre nossa censura para mercados estrangeiros que perceberam que precisam investir em coproduções para essas produções que eles estão apreciando tanto continuarem sendo feitas.

Rachel acrescenta que isso vai acontecer mais para quem já está mais estabelecido, porém para os novos realizadores vai ser muito mais difícil.

Outra questão é que parte da censura indireta é um medo dos próprios concursados de departamentos públicos, ligados a estas decisões, em aprovar algo que seja vetado mais acima e que faça eles perderem o emprego deles, fazendo com que eles não aceitem assinar ou aprovar coisas por medo, e menos por uma ordem específica de não assinar…

Helena acha que existe um sistema de punição que vai ficar cada vez mais rígido. Foram atrás do Kleber, por exemplo. Mas existem mecanismos jurídicos de defesa criados no governo Lula. Eles estão querendo punir porque não conseguem destruir totalmente devido aos mecanismos jurídicos. Um exemplo que Helena cita é quando foi jurada de Roterdã justamente quando concorreu o filme de Kleber “O Som ao Redor”, e cogita que uma das razões para ele não ter ganhado algum prêmio, a partir das conversas na época, teria sido por causa da alegação de um dos membros do júri que alegou que Kleber alterou o projeto original que teria sido aprovado lá quando ainda no roteiro, alegando que estaria diferente do projeto aprovado).
Perguntados sobre a censura discricionária:
Tem que judicializar, como Helena falou, a Ancine tem mecanismos de defesa para isso. Ontem o Judiciário sentenciou que se voltasse atrás a proibição de temas LGBTQIA+ nos editais de produções para TV. Helena acrescentou que teve de vender um apartamento para fazer filme após a era Collor quando acabaram com a Embrafilme. Havia cineastas vendendo coisas na praia, falidos… Não podemos deixar voltar a isto.

Veja íntegra no Almanaque Virtual:

http://almanaquevirtual.com.br/goiania-mostra-curtas-debate-sobre-coproducao-internacional/