Graças a Deus

François Ozon cutuca uma ferida aberta da igreja católica em uma obra poderosa, incômoda e necessária

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26 de junho de 2019

Que François Ozon gosta de uma polêmica, quem conhece seu trabalho já sabe. O cineasta teve seu thriller romântico “O Amante Duplo” estreando aqui no Brasil no Festival Varilux de Cinema Francês 2018 e foi um dos mais polêmicos, passando para o mais polêmico na edição de deste ano com “Graças a Deus”, que foi o vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Berlim 2019. Ozon cutuca a onça com vara curta e dá um soco certeiro no estômago de cada espectador com seu filme baseado na história real que conduziu à condenação, em março de 2018, do cardeal francês Philippe Barbarin por não denunciar as mais de 70 agressões sexuais cometidas por padre Preynat ao longo de sua carreira em Lyon, na França.

Alexandre (Melvil Poupaud), que mora em Lyon com sua esposa e filhos, descobre um dia, por acaso, que o padre que abusou dele quando era escoteiro ainda está trabalhando com crianças. Ele decide agir e logo se juntam a ele outras três vítimas do padre: François (Denis Ménochet), Gilles (Éric Caravaca) e Emmanuel (Swann Arlaud). Eles se unem num grupo de apoio para não mais precisarem carregar o fardo do silêncio a respeito dessa experiência dolorosa, punir os responsáveis e tentar mudar o imenso e já conhecido quadro de pedofilia da Igreja Católica. Com apoio de muitos e impaciência e desdém de outros, eles confrontarão suas experiências pessoais e questionarão toda a sua vida com base nas consequências dos abusos sofridos quando crianças.

Ozon já chega jogando na cara a denúncia de uma das vítimas e seu encontro com o padre que cometeu os abusos, e, sem pressa, desenvolve muito bem todos os personagens principais e os secundários mais importantes. Ao contrário de “Spotlight” (2015), que foca na investigação de casos de pedofilia, “Grâce à Dieu” (no original) se aprofunda na vida dos homens que criaram a associação La Parole Liberée, que permitiu com que mais de 70 vítimas denunciassem os abusos sofridos pelo padre Preynat (Bernard Verley) e a impunidade pelo cardeal Barbarin (François Marthouret). Os personagens são muito bem construídos e não poupam o público dos detalhes dos abusos, das sequelas emocionais avassaladoras que tiveram em suas vidas, nem das novas consequências que vêm junto com as denúncias para eles e suas famílias. Ozon também direciona sua crítica à blindagem que a igreja dá a seus membros abusadores, que nunca são punidos, destituídos de seus cargos e têm seus casos abafados, como é possível ver no longa chileno “O Clube” (2015), de Pablo Larraín. Já prevendo a comparação com “Spotlight”, Ozon se antecipou colocando um pôster do filme ganhador do Oscar no fundo de uma cena.

“Graças a Deus” é aquele tipo de obra poderosa e incômoda que precisa ser assistida. Além de um filme-denúncia, é ainda um filme que mostra enorme solidariedade para com as vítimas dos abusos e nos faz refletir sobre casos recentes de denúncias abusos sexuais cometidos por homens importantes de Hollywood e do mundo da música americana, assim como no Brasil e em diversos países. Afinal, por que a denúncia feita anos depois dos ocorridos é válida apenas para as vítimas do sexo masculino, enquanto que as mulheres que são vítimas são quase sempre invalidadas publicamente por tantas pessoas após denunciarem seus algozes influentes? Por que as mulheres são sempre mais compreensivas com os homens quando eles passam por uma situação traumática, como apresentado no longa nos papeis de muitas esposas e mães, mas são desacreditadas por eles quando mais precisam de apoio? Fica a reflexão.

 

Graças a Deus (Grâce à Dieu)

França – 2019. 137 minutos.

Direção: François Ozon

Com: Melvil Poupaud, Denis Ménochet, Swann Arlaud, Éric Caravaca, François Marthouret e Bernard Verley.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5