Gran Torino

Obra-prima que resiste ao teste do tempo e às problematizações que ela própria evoca e assume pra si, não tendo vergonha de transformá-las em catarse da auto implosão

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12 de janeiro de 2021

Não posso defender muitos os últimos filmes de Clint, que vem confundindo sua persona reacionária com a estética de seus filmes, como se justificasse a postura de intolerância de suas personagens e roteiro apenas pela idade avançada… Pois ele adota uma forma de empatia reducionista que, mesmo não chamando assumidamente suas personagens de “vítimas da história”, como se só existissem dois lados maniqueístas para tudo, ainda assim passa a mão na cabeça com o poder da catarse que só o cinema pode prover.

Porém, dito isso, por incrível que pareça, “Gran Torino” continua sendo sua última e derradeira obra-prima, mesmo diante do teste do tempo, e podemos continuar defendo ele até o fim. Até a representação caricatural das personagens orientais recaem justificadas por se situarem na própria perspectiva afunilada do protagonista. É ele quem está vendo, e nós enxergamos através dele. Mas, ao mesmo tempo, o filme assume intolerância da personagem até o ponto de pressão e ruptura em que só lhe resta a empatia por identificação — quando se descobre tão hipossuficiente quanto aqueles que ele rejeitava, mesmo se considerando “cidadão nato” norte-americano, “com mais direitos que os outros na sua percepção equivocada”.

Poderíamos cogitar que ele estivesse datado pelo extremo preconceito de seu protagonista “white savior”… mas o próprio filme abarca o olhar opositivo a esta postura dele, e no final é a implosão de sua própria postura intolerante a única solução. Ele próprio assume que esse lugar não pode mais existir e passa a tocha adiante… o filme é autoconsciente de seu anacronismo social e abraça o lado moribundo disso como um réquiem estético desglamourizado. E esta é uma das maiores antíteses de um cinema de ação já vistas no cinema, que ainda assim o é cinema de ação, culminando na catarse anti-climática do final surpreendente. Um prato a ser degustado de modo desconstruído, melhor até do que se o próprio chef Claude Troigrois nos desse aulas personalizadas de cozinha!

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