Grande Grande Mundo

Surpresa surrealista sobre tabus freudianos

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12 de junho de 2017

Como é bom se surpreender com um filme. É fácil falar, difícil acontecer. Quando entramos numa sala escura e começamos a ver o reflexo do projetor na tela grande, uma bela magia parece acontecer que nos encanta, vidrados, e fechamos uma espécie de contrato invisível de confiança em nos deixar levar pra outros mundo sem trem ou avião pra decolar… É como se tratasse de uma tabula rasa, já diria orgulhoso o filósofo John Locke, caso estivesse vivo para testemunhar a descoberta do cinema. A cada vez que assinamos este contrato, acreditamos naquele filme, que pode nos surpreender ou mesmo acabar nos decepcionando, mas sempre gerará uma reação. Quando estamos na metade, o jogo ainda pode se inverter, com você quietinho na torcida… Mas o que acontece quando, enfim, encontramos uma caixinha de surpresas, que começa parecendo te levar pra um lugar, depois para outro, e de repente te arranca do chão e você flutua por onde jamais o início ou meio da projeção pareceriam te convidar…?

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Eis o resultado de “Grande Grande Mundo” (ou “Koca Dünya” no original) de Reha Erdem, da Turquia, que define bem qual seria o resultado da inusitada mistura dos filmes “Lagoa Azul”, “A Ilha do Milharal” e “O Jardim dos Vagalumes”: Só o melhor longa em competitiva até agora no Festival do 6° Olhar de Cinema em Curitiba. Tudo gira em torno de dois irmãos adotados. O patriarca da família adotiva pretende se casar com a menina como segunda esposa, que é menor de idade, impedindo o jovem de ver a irmã, que foge com ela pra uma floresta onde irão criar uma nova sociedade. Então sobre o que seria a história que contratamos para viajarmos com ela? Lealdade fraternal? Bem, o longa-metragem já flerta com mais do que isso no momento que estabelece de plano que todos naquela estrutura familiar reproduzem os arquétipos patriarcais tão virulentos à formação social, até mesmo as personagens que reiteram passivamente, omissas ante a ordem retrógrada.

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Como quebrar a corrente? Eis o primeiro choque abrupto, que para alguns pode parecer cruel ou antiético, ou até irresponsável, pois a trama não necessariamente retornará a ele para responsabilizar seus choques pela forma tradicionalmente arquetípica. Não há alívio para o espectador, pois quebrar padrões de comportamento humano milenares não é fácil, e precisa de dor. Mas apesar de não haver alívio, há sim abstração onírica, onde os diálogos vão diminuindo e dando lugar à força das próprias imagens com esmero cromático e criatividade na construção de cenas. Quase esquetes dramáticas dentro do império dos sonhos que vai se construindo aos poucos na loucura – apesar de que algumas reviravoltas por mais insanas que pareçam, acabam depois retomando a coerência e lógica, outras não.

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Então, os irmãos que ligam toda a linha temporal, vão confessando serem mais próximos de metáforas da discussão dos imperativos categóricos sociais, de tabus psicanalíticos dos livros de Freud a Lacan, sobre os porquês de criarmos impedimentos morais naturais para irmãs/irmãos ou pais/filhos não se desejarem sexualmente, e menos estruturas lineares por onde se escreveriam início, meio e fim do filme. Inúmeras sequências brincam com isso e os alicerces de nossa construção social: como o irmão carregando a irmã nas costas feito cavalinho, ou ambos construírem uma casa no meio das árvores como num contrato social à la Jean-Jacques Rousseau… O jovem ator que interpreta o irmão, Berke Karaer, vai se revelando e mergulhando com confiança na atuação antes de início somente tradicional e engessada, mas é a pequena ruiva irmã, Ecem Uzun, a quem é dado um arco de desenvolvimento imprevisível pouco visto para tamanha transformação dramática, que se revela totalmente.

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Afinal, se a narrativa começa com um estranhamento ligeiramente canastra e depois passa por uma 2a fase ingenuamente fantasiosa, que não parece dar a entender muito bem aonde quer chegar, a trama vai crescendo de modo tão meteórico, com requintes lúdicos de surrealismo e uma trilha sonora propositadamente opressora composta com desenho clássico, que eis uma obra-prima a ser descoberta! Tudo orquestrado com maestria pelo diretor turco do cult “Kosmos”, por exemplo, dentre outros exemplares em que se especializa cada vez mais a trabalhar com crianças como atores não-profissionais, sendo que aqui se supera.  E ainda com toques ligeiros de “A Bruxa” (como o bode, a floresta e as crianças que enlouquecem) e “Ponte para Terabitia” (sobre a criação de outros mundos como se fosse uma casa na árvore), além dos filmes citados acima.

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Vejam! Ainda repete na segunda-feira do dia 12 de junho, 18h45, na sala 5 do Novo Batel.

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