Green Book

O Racismo não é cego

por

30 de janeiro de 2019

Quem foi o irresponsável que deixou Peter Farrelly dirigir “Green Book”?!? Quem realmente achou que ficaria “esteticamente” legal chamar um expert em comédia escatológica para dirigir um filme sobre racismo que se pretende levar a sério?

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Farei referência aqui à frase transcrita de um debate que aconteceu recentemente no Festival de Rotterdam 2019, com a Mostra Soul in The Eye Zózimo Bulbul de cinema negro brasileiro apresentado na Europa com curadoria de Janaína Oliveira, onde uma das realizadoras com filme exibido lá, Jessica Queiroz, de “Peripatético”, falou:

“O Cinema branco no Brasil ama falar sobre nós, mas nós somos muito mais do que os objetos tristes e pobres que eles estão retratando” (traduzido para o português de transcrição em inglês por Lyssaria).

O fato é que “Green Book” é um filme que nasce datado em sua linguagem proposta. Um filme de estrada (road movie) com uso de mapas na tela em imagens justapostas durante montagem musicada para mostrar situações fofas de interação entre os personagens principais, ao invés de mostrar os concertos musicais com que o coprotagonista de fato ficou famoso?! É um desperdício. Isto sem falar em música melancólica quando retrata situações de racismo que precisam ser negativas, e, noutros momentos, uma trilha alegrinha quando é para o público rir de situações tão racistas quanto, porém tidas como permitidas…

A história versa sobre um famoso pianista, Doctor Don Shirley (Mahershala Ali, que vem ganhando todos os prêmios como ator coadjuvante por ser a melhor coisa do filme), e seu motorista ítalo-americano grosseiro e racista (Viggo Mortensen), que superariam suas diferenças em prol de uma suposta amizade encontrada na convivência. Tudo baseado teoricamente em fatos reais (até onde pareçam reais, pois a própria família do pianista está negando que jamais tenha havido a amizade carinhosa que o filme retrata…).

Isso sem falar na ironia inversa do efeito “Conduzindo Miss Daisy”: muito surreal que quando enfim o motorista é branco e o passageiro negro…o ponto de vista que segue é o do motorista branco, e não o do rico e poderoso pianista, mesmo numa época de valorização das representatividades. Um personagem como o do pianista cuja interpretação de Mahershala dá mais complexidade e profundidade do que o texto lhe relega, texto este a deixar de lado muitas coisas que poderiam ser aproveitadas de forma melhor na tela grande. E ainda por cima o filme trata a faceta da homossexualidade do famoso pianista como um fetiche! FETICHE!

Já o personagem de Viggo parece que foi tirado sem tirar nem pôr de um dos filmes mais politicamente incorretos do diretor Peter Farrelly: “O Amor é Cego”. Tipo…, seu personagem é preconceituoso…mas “tadinho”, ele tem QI de uma noz moscada…ele come que nem porco, e ainda tem uma base de “valores” rudimentar onde pegar pedra de valor caída no chão “não é roubar”, mas bater em policial por chamá-lo de negro pode… Toda a estrutura do filme “Green Book” veio de “O Amor é Cego”. E o que não funcionava lá continua não funcionando aqui….só que a roupagem de drama de época com direção de arte polida engana bem. Aliás, a reconstituição de época só parece crível de fato em muito por causa da atuação do Mahershala Ali.

E, para além de tudo isso, como disse no início, a própria linguagem é datada mesmo. Uma obra filmada de forma velha…a montagem, os elementos de ligação de cena…, o ritmo, o clímax, a trilha manipulativa (ok, quase todas são, mas com a soma dos itens anteriores se torna pior)… Um road movie engessado. E até mesmo o desfecho forçado em família à la “adivinha quem vem para jantar”, como se resolvesse tudo na mesa de natal, é incrivelmente quadrado.

Mas o principal é a pergunta que permanece ecoando: De onde tiraram que seria legal que a forma mais usada no roteiro pra humanizar o personagem do Viggo Mortensen seria a escatologia….?!? Sim, ele é um ótimo ator. Mas parece quase como se ele só tivesse engordado para o papel e fizesse um sotaque cheio de palavrões e chavões italianos… O ator possui muitas ascendências mistas, mesmo que italiana não seja uma delas, ao menos não imediata. E, pior do que o “italian face”, é que o mais curioso se dá quando seu personagem compara o estigma de “ser italiano” com “ser negro”, e diz não se importar com todos os estereótipos… O filme está sendo equivocado inclusive com os italianos. Não por causa de suas características, já que nunca foram usadas para diminuir ou exterminar italianos, mas sim por trabalhar com a auto aceitação barata de arquétipos rasos, como a lenda do frango frito no filme, algo que nos Estados Unidos era associado a um preconceito tanto de classe quanto racial…. E reduz tudo a Mahershala “não saber ser negro” porque não teria o direito de rejeitar o estereótipo imposto.

  • Hernane Souza

    Ótimas ponderações. A família do Shirley também se queixou de só terem sido contatados da produção quando ela já estava sendo finalizada. Apesar da intenção ter sido boa, realmente o filme possui muitos deslizes ao tratar de temas delicados, que deveriam ser abordados por quem os conhece melhor.