Hamlet ou Morte

85 minutos de riso solto e alta voltagem de energia cênica transbordante

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01 de novembro de 2015

O teatro elisabetano, ou isabelino, era popular, mas tinha má reputação. As autoridades de Londres o proibiram na cidade, por isso que os teatros se encontravam do outro lado do rio Tâmisa, na zona de Southwark ou Blackfriars, fora das competências das autoridades da cidade. Estes teatros conservaram muito da antiga simplicidade medieval. Teatros com diferenças individuais, sua função comum fazia com que todos seguissem um simples esquema geral. Inspirado em sua origem nos circos da época para a luta entre ursos e cães ou nas hospedarias, estabelecimentos baratos de províncias, o edifício teatral consistia em uma construção muito simples, de madeira ou de pedra, frequentemente circulares e dotados de um amplo pátio interno, fechado ao redor e sem teto. Tal pátio se transformou na platéia dos teatros, enquanto que as galerias derivaram das bancadas internas das pousadas. Quando a pousada ou o circo se transformaram em teatro, pouco ou nada se modificou da antiga construção: as representações aconteciam no pátio, à luz do sol. O ator isabelino recitava no meio, não diante do povo: de fato, o cenário adentrava em uma platéia que o circundava por três lados (somente a parte posterior era reservada aos atores, ficando a resguardo do edifício). Como na Idade Média o público não era simples espectador, senão um participante do drama. A ausência dos “efeitos especiais” refinava a capacidade gestual, mímica e verbal dos atores, que sabiam criar com maestria lugares e mundos invisíveis, como a magia de Próspero em A Tempestade – de William Shakespeare – alude metaforicamente a esta magia “evocativa”. Sendo o teatro elisabetano associado tradicionalmente à figura de Shakespeare. Outra característica grande da era elisabetana era a de um “teatro aberto”, não somente no sentido literal do termo, parece demonstrado também pelo sentido da auto-ironia dos atores e dos dramaturgos elisabetanos. O ator gostava de falar ao público por “entrelinhas”, para dar a volta com a personagem mesmo estando recitando, antecipando o distanciamento irônico do teatro de Bertolt Brecht. Para essa classe de atores o dramaturgo elisabetano inventa o teatro dentro do teatro.  O exemplo mais emblemático é o de Hamlet, no qual o jovem herdeiro ao trono da Dinamarca contrata um grupo de atores itinerantes para representar ante os olhos de Claudio, do que suspeita ter assassinado seu pai, um drama que reconstrói o suposto assassinato. Ao final, Claudio se levanta, desgostoso e aterrorizado, deixando a corte. Por isso o jovem Hamlet se convence da culpa (até então sem provas) de seu padrasto, tramando seu assasinato.

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O elenco de “Hamlet ou Morte” apresenta ótimas atuações, como a de Diogo Fujimura (sentado), e com destaque para Mathias Wunder (em pé) e Yuri Ribeiro.

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Destaque também ao criativo figurino, e ao multifuncional cenário de Adriano Ferreira.

Assim é essa montagem de Os Trágicos para “Hamlet ou Morte”. Além de muito hilária, é absolutamente fiel ao espírito do teatro elisabetano, misturado a um grande deboche e a uma trama infame, que é muito engenhosa e bem contada. Ela dialoga verdadeiramente com a construção dramatúrgica de Shakespeare. Já que temos uma referência clara aos contextos criados nas peças de Shakespeare, que abusa do expediente do metateatro como função principal para se desvendar o eixo principal do enredo de suas peças. Assim como o é em “Hamelt ou Morte”, com adaptação e direção de Adriana Maia, que conta a história de quatro ladrões que se encontram em uma prisão e são condenados à morte por furto e adultério, na Inglaterra elisabetana. Eles recebem a visita de um padre para confissão antes da execução e, neste momento, cada uma das personagens narra a sua história, com o intuito de justificar as faltas cometidas. Fazendo-se valer de poucos recursos cênicos, a direção abusa da criatividade em explorar todas as possibilidades do tablado/palco, com direito a outra escada, e uma semi-rotunda, que colabora com as fugas de cena e as fugas dos meliantes. Sem falar na única quartelada do palquinho, que tem também a função de fuga. Pela minha descrição já dá para ver como a peça é dinâmica, e que atrás de uma modesta produção, existe um número grande de possibilidades cênicas e um refinamento ao apresentar tantas entradas e saídas, todas que dialogam com a tradição do teatro clássico. A trupe, formada só por homens, cinco atores (Diogo Fujimura, Gabriel Canella, Mathias Wunder, Pedro Sarmento e Yuri Ribeiro) totalmente à vontade e disponíveis para nos matar de rir, com ótimas performances – com destaque especial à Mathias Wunder e Yuri Ribeiro -, justificam muito bem também a contextualização histórica de que só homens podiam subir ao tablados, e assim interpretar mulheres. A peça utiliza também interferências sonoras ao vivo, portando um violão e um teclado, em uma mistura de cordas e música eletrônica, e abusando da liberdade despudorada em fazer referências a religião atual, a hipocrisia que a cerca, e também de colocar o “povo” dentro da cena teatral, de forma bastante interativa e contundente. Pegando nas pessoas, criando foco de luz e jogando roupas sujas, e íntimas, em nós. Um escracho divertidíssimo, para contar uma história bem engendrada, e rica em detalhes, desde a elipse de tempo que cada uma delas retrocede para justificar a ida à prisão dos ladrões, até o desfecho final em que usa o metateatro utilizando justamente a peça “Hamlet”, uma das obras primas de Shakespeare que usa com primazia este artifício.  Ou é Hamlet ou é a morte!!!!  Que o diga a Rainha e a plateia!!

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O conjunto de “Hamlet ou Morte” chama a atenção com méritos à adaptação e direção de Adriana Maia

Cercada de bons elementos cênicos, de um criativo figurino e de uma múltipla cenografia de Adriano Ferreira, de uma deliciosa intervenção sonora,  e de atuações hilárias e muito bem desenhadas, “Hamelt ou Morte” nos leva até o período do teatro elisabetano, em uma roupagem contemporânea, e altamente divertida e dinâmica. São 85 minutos de riso solto e alta voltagem de energia cênica transbordante.

 

 

 

 

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4