Hannah

Jeanne Dielman alcança a terceira idade em seu melhor

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10 de julho de 2018

“Hannah” do italiano Andrea Pallaoro, falado em francês e com a atriz britânica Charlotte Rampling pode não parecer um filme facilmente palatável a princípio, mas possui um desenvolvimento de mistério e de culpa agregados ao drama intenso e contemplativo que arrebata quem embarcar nele até o seu angustiante final.

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Com ritmo mais reflexivo e longas cenas de rotina, parece que vai emular o sucesso anterior com Rampling, o cult instantâneo “45 Anos”, mas na verdade toma de assalto referências a outro clássico dos clássicos mais pregresso: “Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles” da saudosa Chantal Akerman. Acompanhando a lenta e melancólica rotina de uma senhora de idade, o filme guarda um segredo terrível que poderá colapsar e implodir a pessoa que olhamos tão atentamente, mesmo que ela se esforce em se reinventar como no curso de teatro, onde vemos Charlotte atriz e personagem numa metalinguagem de sua própria atuação externa dentro da atuação interna. Uma entrega máxima por parte de Rampling que ganhou melhor atriz no último Festival de Veneza.

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O trabalho de atriz de Charlotte Rampling é de uma sobriedade tão chocante frente a quaisquer adversidades que se torna muito mais difícil parecer não reagir do que o inverso. Para pessoas acostumadas a avaliar uma interpretação pela explosão, não vai encontrar isto aqui. Ela está tentando colar seus pedaços que estão se esfacelando. Isto para um filme onde tudo está no não-dito, no subtexto. Há grande parte narrativa aparente apenas na repetição de rotina, porém cada ato de repetição vem acompanhado de um novo pesar, culpa, remorso ou penitência. Qual seria o segredo tão terrível que sua personagem resguarda ou nega para si mesma. As desconstruções faciais da atriz são de minúcias impressionantes. Sua face parece que está derretendo em alguns momentos. Sem esquecer que Charlotte representa uma personagem na terceira idade, que não necessariamente cuidou de si durante a vida, e a mera exposição cruel de uma idade ampliada pelo papel desempenhado deixa Charlotte ainda mais vulnerabilizada para a câmera. Vide a cena do banho dela no clube, com um vigor poucas vezes mostrados em cinema para fortes e complexas personagens mais idosas, e que cada vez mais são forças eternas de juventude da mente de reflexão cinematográfica.

Festival do Rio 2017 – Panorama do Cinema Mundial

Hannah (idem)

2017, 95 min. Itália, Bélgica e França

De Andrea Pallaoro

Com Charlotte Rampling, André Wilms