Haru- A Primavera do Aprendiz

Ótima ideia sobre o encontro de um aprendiz e um sábio se perde na falta de dramaturgia e direção

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03 de outubro de 2015

Apresentado no primeiro dia do 8o FENATIFS, em uma sessão diurna (9h) no Teatro do Cuca e em uma sessão noturna (19h30m) no Teatro do Centro Cultural Amélio Amorim, o espetáculo “Haru- A Primavera do Aprendiz” tem como mote principal o encontro entre um jovem mágico aprendiz e um ancião mágico sábio. Ele ocorre em um país oriental, e irá colaborar para o aperfeiçoamento do menino que já sabe executar números de mágica e ilusionismo. O que vemos em cena, é uma proposta bastante híbrida, que não consegue definir, com clareza, o conceito e a estética do espetáculo, o tornando apenas como um show de boas mágicas, destituído de uma boa dramaturgia e direção. O espetáculo se revela na verdade como uma sucessão de mágicas, onde os truques se repetem por diversas vezes, e parecendo que o jovem aprendiz pouco tem a aprender com o velho sábio, em vistas de que ele na verdade já conseguia fazer, desde sempre, números de mágicas, faltando-lhe apenas aparar pequenas arestas, sem que para isso fosse necessário viver uma saga, ou odisséia, em um encontro mágico com um ancião sábio. Bastava-lhe apenas uns poucos dias de ensaios e aperfeiçoamento. As etapas de uma boa dramaturgia se perdem neste sentido: onde se dá este encontro? Em que local? Por quê? Como começa essa relação? Como ela cresce? Aonde o jovem mágico aprende a aperfeiçoar suas mágicas?  Não vemos em cena a construção real de um contraceno verdadeiro entre as personagens – apenas a sugestão dele.

Haru (1)

A caracterização (maquiagem e figurinos), é a parte mais delicada do espetáculo

Haru - A Primavera do Aprendiz -PE

Alguns efeitos que poderiam ser poéticos, são realizados mecanicamente e sem teatralidade

Colabora decisivamente para tudo isso, a direção de Santacruz e Christiane Galdino, que deixou muitas pontas pelo caminho da encenação. Existe uma dessincronia nos elementos técnicos do espetáculo. A começar pelo cenário da peça que ficou imprensado no fundo do palco/proscênio do C.C. Amélio Amorim, e nos deixando muito distantes das mágicas/ilusionismo. Objetos muito pequenos como bolinhas, cartas de baralho e truques com recipientes para “água”. A proposta do cenário, em ser uma composição de tendas inspiradas em feiras brasileiras – em quase nada lembra as feiras do Brasil, e tão pouco a de Caruaru -, e orientais. Acabou que a mesma ficou cem por cento com a aparência de uma tenda japonesa – ou oriental -, e valorizando muito o seu teto de cor azul. Destoando também claramente das cores símbolos que representam o Japão (preto, branco e vermelho); não que esta cor não pudesse ser usada, mas diante de tanta imponência japonesa no cenário, no gestual, na concepção cênica, e no figurino; este elemento chamou a atenção estranhamente. Assim como a luz, que deixou o palco muito escuro. Sem deixar de citar também sobre a enorme quantidade de segmentos artísticos citados no release da peça que pouco, ou nada, são desenvolvidos no decorrer da montagem, como o teatro físico – está mais para pantomima em comédia dell’arte -, a mímica – uma ou duas -,  o espetáculo sem texto – o sábio verbaliza diversas vezes – e clowns – um apito, apenas no início, sugere um jogo de clown. Além de faltar ritmo, timming e harmonia entre as cenas, os sons incidentais, a atuação e a junção do todo. O trabalho dos atores são bastante corretos, ressaltando a boa concentração do ator  que interpreta o sábio, e o carisma e a habilidade mágica, de Rapha Santacruz.

Haru (2)

A cenografia possui alguns códigos conflitantes em sua paleta de cores

Haru (3)

O que move de fato o espetáculo é a apresentação de números de mágica e ilusionismo. Tudo gira em torno destas práticas.

O espetáculo “Haru- A Primavera do Aprendiz” é um trabalho bastante curioso, pois tem tudo para ser um ótimo espetáculo. Apresenta uma ótima ideia, boa execução das mágicas e ilusionismo, produção caprichada, bonita maquiagem; e merecia uma sensível revisão em sua dramaturgia e direção. Um acerto a escolha deste trabalho para compor a programação do 8o FENATIFS .


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