Hear Me Move

"Escute eu me mover", 'escute' esse texto

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03 de setembro de 2017

Todo ano o cinema de entretenimento de massas produzido nos EUA gera um ou dois filmes de dança, plasticamente bonitos de praxe, com um elenco jovem de quem se é exigido um nível de atuação equivalente ao do nosso programa televisivo “Malhação”. O que não precisa ser encarado como um demérito, afinal, já revelou muitos bons artistas, que vão conquistando terreno artístico após a idolatria da febre inicial adolescente, como os americanos Channing Tatum em “Ela Dança, Eu Danço” ou Jessica Alba em “Honey: No Ritmo dos Seus Sonhos”. Acontece que estes ritmos e músicas dançantes costumam acompanhar o universo pop da atualidade, sempre tentando olhar para frente, e quase nunca mirando encontrar as raízes que geraram este progresso. Pois é sobre este encontro que move o filme “Hear Me Move” de Scottness Smith produzido na África do Sul, um dos berços da música de influência mundial, e que foi exibido na noite de abertura do Festival do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul Brasil, África e Caribe – 10 Anos.

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Contando uma história que pode aparentar simplicidade de princípio, ao trilhar a típica jornada do herói através do protagonista Muzi, defendido com uma intrigante introversão sensorial para além do inegável talento corporal inversamente expansivo do ator Nyaniso Dzedze, o filme segue o filho de um gênio da dança que morreu assassinado em circunstâncias misteriosas. Isto estigmatizou a família de modo a tentar não trilhar os mesmos passos do pai, independente dos estímulos de amigos para não desperdiçar o talento rítmico. A partir de então outros personagens coadjuvantes vão sendo apresentados como uma típica narrativa de entretenimento, como o grande mestre com um segredo obscuro, o alívio cômico, o interesse romântico, e o vilão que está intrinsecamente ligado ao passado do herói. Mas nada disso diminui o impacto das cores e movimentos que acompanham cada cena musicada, seja com a câmera ou os efeitos de luz primorosos que lembram a fotografia multicolorida em ambientes mais escuros dos filmes da cineasta Dee Rees (“Pariah” e “Bessie”). De tal modo que certas coreografias conseguem fazer os mesmos filmes americanos citados no início parecer brincadeira de criança.

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Há um aproveitamento da tessitura de melodrama não abrupto, aqui emprestado do gênero policial com a subtrama de crime e drogas, mas que se torna natural com o decorrer das batalhas de dança, de modo a não permitir que a artificialidade inerente à essência da suspensão de realidade que qualquer música possa influenciar no cinema derrape sem conteúdo. E, claro, há uma criação de símbolos e exemplos positivos para a construção de um novo imaginário afora das tentações que qualquer fama possa trazer junto com o sucesso metaforizado nos personagens, e no próprio filme como produto de entretenimento. Todas estas provocações estão compassadas e amarradas não apenas pelos cenários e artes em grafites deslumbrantes nas panorâmicas solares retratadas da cidade, mas como pelo talento orquestral da trilha, onde o próprio título já brinca com o jogo de palavras: “Escute eu me mover” (traduzindo de forma livre do original), ao invés de “veja eu me mover”, dando protagonismo à escuta que entranha nos poros da gente se assistido com a qualidade dos cinemas. Consegue reunir arranjos eletrônicos do hip hop com a melodia da percussão ancestral do folclore local, de modo a quebrar a ficção e invadir o real, ao mesmo tempo em que os personagens ganham consciência também do resgate e reivindicação de suas raízes culturais não americanizadas, inclusive nos inventivos figurinos.

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Um filme com ares de produção comercial, mas que reúne características autorais e artesanais de cultura local que consegue se comunicar com anseios universais. Não à toa o filme recebeu duas indicações ao South African Filme and Television Awards (SAFTA) e está com excelente rendimento nas qualificações da internet como nota 8,3 no site do IMDB (international movie database) como repercussão positiva de um circuito alternativo, pois alcança uma formação de público que, infelizmente, ainda não está sendo encontrada a não ser em Mostras e Festivais alternativos ao circuito comercial de salas de cinema padronizador.

O filme reprisa neste domingo dia 03 de setembro de 2017 às 19h no Cine Odeon pelo Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul Brasil África e Caribe – 10 Anos