Hebe – A Estrela do Brasil

Andréa Beltrão brilha na pele de uma Hebe que desafia a censura e se coloca como dona de sua carreira e de sua vida

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26 de setembro de 2019

Hebe Camargo (Andréa Beltrão) foi uma das apresentadoras mais consagradas da televisão brasileira e é sempre lembrada por sua alegria, irreverência, extravagância e pelos selinhos que sempre dava nos convidados de seu programa. Quem for ao cinema esperando por uma biografia tradicional da vida da apresentadora até a sua morte, em 2012, provavelmente vai se decepcionar, pois “Hebe – A Estrela do Brasil” acaba sendo um filme militante, cujo conteúdo se encaixa muito bem aos dias de hoje e à censura que o cinema brasileiro vem sofrendo – talvez tenha sido essa a intenção da roteirista Carolina Kotscho (“Dois filhos de Francisco”) e do diretor Maurício Farias, que vem de uma longa parceria com Andréa Beltrão nas séries globais “A Grande Família” e “Tapas e Beijos”, e nos longas “O Coronel e o Lobisomem” e “Verônica”.

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O filme se passa em São Paulo, nos anos 80, período em que o Brasil vivia uma de suas piores crises na transição da ditadura para a democracia. Com 40 anos de profissão e quase 60 anos de vida, Hebe decide bater de frente com a censura, abandona seu programa na Band, assume sua própria carreira e aceita proposta de Sílvio Santos (muito bem caracterizado e interpretado por Daniel Boaventura) para ter um novo programa no SBT, onde seria livre para fazer tudo do seu jeito. Hebe

No lado pessoal da apresentadora, vemos a sua relação com o único filho Marcello (Caio Horowicz), do casamento com o primeiro marido, Décio Capuano (Gabriel Braga Nunes), com o sobrinho e braço direito Claudio Pessutti (Danton Mello) e com o seu até então marido Lélio Ravagnani (Marco Ricco), um homem extremamente ciumento, agressivo, machista e abusivo, com quem vive uma crise naquele momento. As amigas Nair Bello (Claudia Missura) e Lolita Rodrigues (Karine Teles), com quem Hebe formava um trio icônico da televisão brasileira, aparecem rapidamente só para dizer que foram lembradas, bem como Sílvio Santos, que aparece apenas em uma cena. A caracterização das personagens é um show à parte: Stella Miranda como Dercy Gonçalves, Felipe Rocha como Roberto Carlos e Otávio Augusto como Chacrinha estão incríveis e muito parecidos com os originais, inclusive nos gestos e na maneira de falar. Andréa Beltrão rouba todas as cenas e encarna muito bem a apresentadora, principalmente no jeito expansivo e sem papas na língua, porém sem imitá-la, e sim interpretando sua própria Hebe. A caracterização, assim como a do restante do elenco, está impecável com todo o seu exagero nas roupas, joias e penteados, que viraram sua marca registrada. A famosa frase dita por Hebe ao vivo não poderia faltar na trama: “A Hebe não é de direita, a Hebe não é de esquerda. A Hebe é direta”.

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Enquanto o longa mostra uma Hebe afrontosa que luta pelos direitos dos LGBTQ+’s, fala sobre AIDS na televisão em plenos anos 80 e não aceita ser controlada por homens nem pela censura da época, peca ao passar quase batido pelo seu polêmico apoio ao político Paulo Maluf e não desenvolve muito os temas que apresenta em tela. Faltam selinhos distribuídos e há um exagero nas cenas de embriaguez, que poderiam ser substituídas por outras mais relevantes. O recorte escolhido por Kotscho e Farias gera certa decepção em parte do público, pois só foca em um curto período da vida de Hebe, que merecia uma homenagem maior à sua longa e bem sucedida trajetória na TV e à mulher incrível, capaz de superar qualquer crise, que era. “Hebe – A Estrela do Brasil” é um bom filme naquilo que se propõe, mas poderia ser muito melhor se, de fato, se aprofundasse na história da apresentadora. O antes e o depois desse recorte escolhido na linha do tempo nos deixa na curiosidade e com desejo de quero mais.

 

 

Hebe – A Estrela do Brasil

Brasil – 2019. 112 minutos.

Direção: Maurício Farias

Com: Andrea Beltrão, Marco Ricca, Caio Horowicz, Danton Mello, Daniel Boaventura, Felipe Rocha, Gabriel Braga Nunes, Stella Miranda, Otávio Augusto, Claudia Missura e Karine Teles.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4