Henfil

Cartunista continua mais atual do que nunca, fica a dica

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10 de outubro de 2017

Um documentário subversivo sobre um artista subversivo, mais atual do que nunca para os tempos atuais, “Henfil” de Angela Zoé vai além do que nos lembramos da pessoa como figura pública e traça o retrato de um país durante dois períodos revolucionários consecutivos. O primeiro período foi extremamente negativo para a manutenção de direitos fundamentais do país, a Ditadura Militar, mas que fomentou algumas das maiores mentes criativas do Brasil a burlar a censura com suas críticas catárticas, como Henfil fez com seus colegas no antológico jornal Pasquim. E a segunda revolução foi o movimento contrário, o de “Diretas Já”, expressão da qual Henfil foi um dos criadores, na luta pelas eleições democráticas e livres pós-Golpe.

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Talvez Angela Zoé, diretora do multipremiado “Meu Nome é Jacque” sobre a ativista trans homônima, já tivesse uma vantagem prévia para abraçar este projeto, pois foi uma das produtoras do documentário “Betinho, A Esperança Equilibrista” de Victor Lopes. Isto já representava meio passo dado na direção da acessibilidade e pesquisa em relação à família dos irmãos Betinho e Henfil (e Chico Mário), não apenas aos respectivos trabalhos como à intimidade e saúde dos biografados, todos hemofílicos, doença herdada da mãe. E, inclusive, a mesma doença compartilhada pela família acaba aqui como metáfora da própria vida de Henfil, que não hesitava ou se demovia de fazer qualquer coisa pois acreditava não possuir tempo a perder. Aliás, até seus traços no desenho poderiam ser definidos igualmente assim. Traços simples e de riscado prático, para não precisar fazer correções. Raramente ele fazia mais de uma versão para chegar a um desenho definitivo.

É decerto muito bonito ver dos próprios colegas de trabalho como Jaguar, Tárik de Souza e Ziraldo, colegas de Pasquim, sobre como era trabalhar com ele e como testemunhavam o trabalho do amigo. Inclusive, há uma narrativa paralela na história do documentário com uma equipe de animadores que começam a treinar concomitantemente os desenhos e personagens de Henfil para homenageá-lo numa animação própria, em 3D, tentando capturar a essência dos originais. Recebem para tanto auxílio dos próprios mestres amigos de Pasquim e do filho de Henfil. Talvez esta parte especificamente tenha ficado só um pouco deslocada, com a garotada ainda que talentosa reproduzindo os mais famosos personagens, como os fradins, o Zeferino ou mesmo a ave graúna, que alguns críticos da época chamaram de sua primeira personagem feminista, à frente de outras tirinhas da época. Mas só o prestígio de se ver o resultado final ao término da projeção, durante os créditos, trazendo de volta à vida os queridos personagens em movimento, já faz toda a epopeia da equipe ter valido a pena.

Acontece que Henfil teve sonhos do tamanho de um mundo, e percorreu grandes aventuras à altura, como chegou até a fazer filme nos EUA, que ficou esquecido na memória, ou mesmo publicou alguns de seus trabalhos em impressos estrangeiros, que não se adaptaram muito aos ideais mais sociais de suas crônicas desenhadas. Sobre a influência negativa que a América do Norte e seu imperialismo capitalista deixou em Henfil, ele chegou até a fazer um livro, “Diário de um Cucaracha”, o que gerou a gênese de mais um personagem, a famosa baratinha da capa do livro.

Isto e muito mais vem acompanhado de detalhado material de arquivo, alguns advindos de acervos pessoais e bem guardados, com filmagens raras em super 8 do cartunista e sua família, voltando à tona com tanto carinho. Uma crônica maior deste grande cidadão brasileiro que verdadeiramente se posicionou e se responsabilizou em relação a seu país, quando mais do que nunca este é o recado que tem de ser seguido de novo pela população. O estado atual do governo e da política precisam de alguém como Henfil e seus trabalhos recuperados em uma obra como esta para ganharem ressignificação à luz do presente e das novas gerações.

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Festival do Rio Première Brasil Documentários

Henfil (idem)

2017, 75 min

De Angela Zoé