Hereditário

Paranoia da maldição

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23 de junho de 2018

Como falar sobre “Hereditário” de Ari Aster sem estragar nenhuma surpresa? É difícil, mas não impossível, então vamos lá.

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Primeiramente, o que todos querem saber: “Vale a pena?” — SIM, vale MUITO !

O que posso e até devo adiantar é que o filme muda bastante de chave narrativa durante a projeção, de drama psicológico, a filme de assombração, para terror de possessão e daí em diante. Algumas mudanças são até bastante drásticas para quem apenas viu o trailer, quase sendo outro filme… — na verdade, mais de um ‘outro filme’, como se contivesse ao mesmo tempo de “A Chave Mestra” de Iain Softley, “Hellraiser” de Clive Barker a “Os Demônios” de Ken Russell. Palmas para o trailer, por sinal, que não entrega absolutamente nada; coisa raríssima hoje em dia.

O que vale dizer acima de tudo é que dá orgulho ver filme de terror que independente de sustos ou de provocar medo a partir de truques técnicos como com o som ou ilusões óticas, “Hereditário” é um dos exemplares que foca mais do que com excelência na atuação, até nos coadjuvantes menores como a participação mais do que bem-vinda de Ann Dowd (a famigerada Tia Lydia de “The Handmaid’s Tale”). É a atuação que faz imergir tão bem no clima de perturbação que permanece mesmo após a projeção, como se algo do mal houvesse lhe tocado, atuação aliás especialmente abrilhantada pela protagonista Toni Collette (notabilizada no início da carreira com outro clássico do horror psicológico: “O Sexto Sentido”). Toni vai dando camadas à sua personagem de início em meio ao incômodo silêncio da família central do filme e, mais para frente, através da incorporação de um estado de paranóia tão formidável, que o espectador nem percebe o que lhe capturou até que seja tarde. E olha que mesmo quando a história assume recursos narrativos mais sobrenaturais ou alguns efeitos especiais desnecessários, Collette jamais perde o prumo do controle cênico. — Vale mencionar que aqueles a já terem testemunhado a versatilidade curricular da atriz australiana no seriado de TV injustamente extinto cedo demais, “United States of Tara”, onde ela possuía inúmeras personalidades, sabe muito bem do que ela é capaz.

O mais curioso é que o filme dá certo mesmo apesar de inúmeros facilitadores de roteiro e ‘Deus Ex Machina’, e, de forma surpreendente, usa as lacunas colocadas intencionalmente, como a falta de desenvolvimento de alguns personagens ou a descontinuidade de outros, para ressignificar tudo depois. Tudo acaba se justificando. Cada peça se encaixa, mesmo que não necessariamente aonde você havia previsto. As lacunas são usadas posteriormente para cambiar a trama para novos lados, mesmo que, reitero nesta tecla, apele para efeitos especiais ou paranormalidades um tico excessivas quando a bizarrice já existente na naturalidade havia conduzido o filme perfeitamente até uns dois terços de uma projeção longa, mas que passa rápido e de forma fluida.

Sobre a trama, basta dizer que versa sobre uma família tentando se recuperar de um trauma, e esta perda irá mergulhá-los no abismo psicanalítico de seus piores lados, ante o perigo de perder completamente o controle de suas heranças e crenças sociais. Tudo bem que a produtora do filme, A24, já está mais do que acostumada a produzir maravilhosos exemplares de terror, como “Ao Cair da Noite” no ano passado, mas não que tenha se superado ou falhado, apenas que vai para outro lado antes não explorado, de uma paranoia maldita — o que talvez seja precisamente o que a ascenção de pesados conservadorismos no mundo estivessem necessitando.
Alerta: contém algumas das cenas mais perturbadoras do ano!

A última vez que uma sensação de ter tocado verdadeiramente em algo do mal e ter sido tocado de volta realmente, ao menos para este crítico, havia sido com os filmes da franquia “Invocação do Mal”, ou no máximo com os videogames da franquia “Silent Hill” (pena os filmes sobre os games terem sido tão inferiores — só se salvando a direção de arte e a cena do banheiro entrando na dimensão demoníaca do 1° filme — sina recorrente de péssimas adaptações de games). É de se apreciar muito a sensação virótica e doentia da construção de clima que alguns filmes mais com alusão maldita evocam, como “Invocação do Mal” e “Hereditário”, mas a sequência derradeira do exorcismo na janela de “Invocação do Mal 2” perde um pouco isso naquele final. Pena, porque o restante do filme é soberbo. Ainda que, aliás, faça voltar às raias da excelência, mesmo depois daquele desfile de escola de samba do desfecho, por causa das fotos reais dos registros históricos em que o filme foi baseado (aliás, registros históricos verídicos em filmes de terror são um dos melhores recursos, como no filme “Verônica” da Netflix).

Mas vou discordar quando algumas pessoas estão usando a expressão “desfile de carnaval” que usei para “Invocação do Mal 2” também para “Hereditário”, porque, aqui neste exemplar, o “desfile” na verdade funciona como direção de arte do macabro, enquanto que o desfile do final de “Invocação do Mal 2” foi muito mais pra dar “show/espetáculo” fulminante nos minutos finais, como se fossem as explosões e a hora que a trilha sonora aumenta de volume no final dos filmes de ação pra dirigir o espectador.

É de se considerar, como conclusão mais coletiva, que todos podem concordar que estamos muito bem servidos de filmes de terror para todos os gostos nesta década, e que eles estão enfim recebendo reconhecimento de público/crítica/bilheteria como merecem para deixar de ser vistos como primos pobres do purismo da sétima arte.

PS. Vale ressaltar uma observação final de que a atriz Milly Shapiro, intérprete da personagem Charlie, filha de Toni Collette em “Hereditário”, evidentemente está com maquiagem para deformá-la, e que seu rosto não é como está nos cartazes e divulgações do filme — vide foto abaixo.

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“Hereditário” de Ari Aster com Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro