Hippopotamus – Até que você me ame

Uma ideia original e... pretensiosa.

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20 de maio de 2020

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Alerta: Este texto pode conter spoilers sobre a trama.

Exibido no Festival de Cinema de Brasília de 2020, que em virtude da pandemia de coronavírus está acontecendo exclusivamente online, o longa-metragem Hippopotamus escrito e dirigido pelo inglês Edward A. Palmer, é uma produção extremamente simples que usa o extracampo para entregar informações essenciais à trama ao expectador.

A sinopse apresentada não é novidade no meio cinematográfico e foi vista recentemente de forma similar no premiado, O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson. Em Hippopotamus, a personagem Ruby (Ingvild Deila) desperta em um cômodo branco sem lembrar-se quem é ou onde está. Ali é informada por Tom Allcroft (Stuart Mortimer) que foi sequestrada por ele, teve seus ligamentos de ambas as pernas cortados – não podendo se mexer – e que ali permanecerá como prisioneira até que o ame.

E é neste cômodo que 90% da história acontece, mostrando a simplicidade da produção. À medida que a relação entre as personagens se desenvolve, Tom começa a oferecer “gatilhos” – objetos, refeições, sons – para que a memória de Ruby seja reestabelecida e ela possa recordar dos acontecimentos que a levaram até ali. Paralelamente a isto, vemos a sede de liberdade crescer na vítima.

Caso o espectador absorva uma primeira camada do filme, é possível que o mesmo chegue ao fim da exibição acreditando que o enredo aborda a superação de traumas e também acreditando no ato heroico de amor feito por Tom. Mas, ao longo da trama são oferecidas “pistas sutis” que sinalizam que aquele algoz não é um narrador confiável, e que sua versão dos fatos não é a verdadeira. Para enaltecer o conflito entre a versão contada em flashback e o que de fato ocorreu, é essencial a presença da personagem do amigo de Tom, Rob (interpretado por Jonathan Cobb).

Através de algumas poucas falas de Rob é possível perceber que a relação entre Ruby e Tom não é exatamente o que ele conta à vítima no 3º ato. Sejam por ligações ignoradas mostradas em cena ou por falas como “se ela não deixar você subir mais uma vez”, é possível concluir que aquele relacionamento já não existia. Então, ao invés da história “romântica” que está sendo narrada, é possível entender que se trata de fato de um sequestro, fruto de um relacionamento abusivo cujo final não foi aceito.

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Diante desta perspectiva a trama ganha outros ares; Tom e Ruby provavelmente eram vizinhos, se conheciam há anos, e aparentemente desde o início o rapaz tinha uma fixação por ela. Eles de fato tiveram um relacionamento – motivo pelo qual Tom oferece gatilhos dos momentos positivos – mas que terminou com a ida de ambos para diferentes faculdades. O término claramente não foi aceito por Tom, levando-o a uma obsessão que teve como ápice o assassinato do novo namorado de Ruby. Tal acontecimento também narrado por ele, mas colocando-o na posição de herói, na tentativa de convencer Ruby de sua inocência e retomar o namoro entre eles. Entretanto, ao relacionar-se sexualmente com Tom outro gatilho é acionado, levando a vítima a recordar-se da verdade, resultando em sua frustrada tentativa de fuga. A cena final do filme é usada para corroborar e “desenhar” para a audiência a essência e reais intenções de Tom.

O roteiro tem seus pontos de originalidade, mas o filme como um todo não funciona, por mais que a iniciativa de mostrar um relacionamento abusivo levado ao extremo seja positiva. Como em O Homem Invísivel de Leigh Whannell, a escolha por um ator fisicamente atraente para o papel do abusador é excelente, pois ajuda a descontruir a imagem muitas vezes pré-concebida de como seria este homem, e que na verdade pode ser qualquer um.  Contudo, a quantidade de furos no roteiro é notável, dentre eles: a real condição psicológica de Ruby, e a problemática de que a versão de Tom já não se sustentaria somente pelo modo como ele escolhe lidar com a situação, que já é um abuso. Tais furos acabam tirando o filme da categoria de original e colocando-o como pretensioso. A intenção do diretor está clara, mas também é visível que a mesma precisava ser mais bem desenvolvida para ter uma execução satisfatória.

Na maioria das vezes nem uma boa atuação do elenco é capaz de sustentar um filme quando a premissa é mal elaborada, e em Hippopotamus isto fica claro. A intenção do diretor Edward A. Palmer está ali, a escolha do elenco é boa, a prerrogativa de uma produção de baixo custo funciona, os dois primeiros atos desenvolvem-se bem, mas no terceiro ato a conclusão deixa notável que faltou amadurecimento ao roteiro. Há potencial ali, mas infelizmente ele não acontece como um todo. Uma pena.

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