História de um Casamento

Lavação de roupa suja de um divórcio unilateral

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27 de outubro de 2019

Ontem a 43° Mostra de SP deu um presentão cinematográfico para os cinéfilos: a chance de ver o filme “História de um Casamento” (“Marriage Story”) de Noah Baumbach (diretor de cults como “A Lula e a Baleia” e “Frances Ha”), que foi produzido pela #Netflix e irá estrear na teoria direto em streaming — mesmo tendo competido no Festival de Veneza com excelente recepção. — mas isso não quer dizer mais nada em relação ao circuito, não é verdade?! Já que os streamings criaram regras próprias de janelas de escoamento para os filmes.

Porém…, apesar de muita gente ter saído dizendo ser uma obra-prima, sinto decepcionar leitores dizendo que o filme se afileira às minhas decepções na Mostra deste ano. E explicarei isso SEM SPOILERS logo abaixo!

Inspirado na sua própria história, o diretor projeta em Adam Driver um alter ego de seu primeiro divórcio num filme tecnicamente muito bem azeitado. Em termos de formato, talvez seja uma de suas obras com melhor montagem e acabamento, envolvendo o espectador numa espiral dolorosa de separação que não perde o ritmo nem gera barrigas ou pontas soltas na história. A questão com o filme não é esta parte, tecnicamente falando.

A excelência depurada na linguagem após tantas obras no mercado é que este mesmo apuro se torna cruel e datado perante a história “do casal” que ele pretende contar — especialmente se atinado à luz dos anseios sociais contemporâneos para os quais o cineasta até dá ouvido, mas depois atira no próprio pé. Como assim? Vamos lá:

A partir da própria leitura semiótica do Pôster, o casal interpretado por Adam Driver e Scarlett Johansson ocupa praticamente o mesmo espaço de quadro, podendo-se dizer, inclusive, que Scarlett até recebe um foco maior, estando em primeiro plano e com o referencial de iluminação do quadro. Porém, isso não poderia ser mais oposto no filme, uma vez que suas motivações e personalidade serão em muito escamoteadas por sombras e elipses que irão priorizar o personagem de Adam Driver. Até aí poderia se alegar um reflexo natural de lugar de fala, uma vez que seja inspirado em sua própria história, e ninguém melhor do que ele mesmo para entender o seu lado da coisa. O problema começa na maneira com que o alter ego inspirado livremente em sua vida começa a ser retratado com condescendência e vitimismo.

Independente de não se furtar a enunciar que a maioria das razões da separação tenham sido sua culpa (em consonância com uma visão moderna anti-patriarcal, a reconhecer o exercício totalizante do controle e manipulação masculina no casamento sobre o desejo da mulher), logo depois o roteiro aproveita todas as oportunidades que pode para passar a mão na cabeça do marido. E mais do que isso, pinta a esposa como carrasca e megera por querer liberdade na própria vida, mesmo que algumas pouquíssimas vezes mostre a perspectiva da visão dela. A narrativa é completamente desequilibrada e parece quase querer lavar roupa suja pessoal do casal em um filme bastante público e aberto a todos ao sofrimento alheio. Mais uma vez, não estou dizendo que cinema não funcione justamente para isso, mas chega a ser cruel propor desde o título ao conceito visual uma história de um casal e sequestrá-la para uma visão única e não plural.

Isto não quer dizer que os artistas não estejam bem. Ambos são cheios de recursos maravilhosos para brilhar (mesmo no curto espaço de cena para Scarlett). Mas a história não permanece apenas no drama intimista, até porque a linguagem descolada de Noah sempre flerta com a comédia e o lúdico non sense. E aí entra a outra parte da história, a jurídica e processual, com advogados interpretados por nomes do calibre de Laura Dern, Alan Alda (quase subaproveitado e dispensável, coitado) e Ray Liotta que abraçam de vez a caricatura como alívio cômico — o que esvazia a seriedade de alguns argumentos ali trocados. Laura está muito parecida com sua mais famosa personagem atual, Renata em “Big Little Lies”, e chega a engolir as cenas em que contracena com Johansson (tanto que ganhou o prêmio de atriz coadjuvante no Hollywood Film Awards 2019). Não por falta de empenho de Scarlett, porém por chaves diferentes de interpretação, e o humor de Dern engole o intimismo de Johansson por misturas no timing “errado” — e digo “errado” porque são mais pesos colocados sobre o ombro da personagem que amplia a carga de “megera”, porque a advogada de Dern recebe autorização injustificada e nunca devidamente fundamentada para “destruir” o personagem de Driver. Aí o que não eram necessariamente pontas soltas passa a se tornar…

Há cenas que chegam a parecer desenhadas para o Oscar, como a de Driver cantando como Anne Hathaway em “Les Miserables”, e que o vitimizam ainda mais. Tudo isto na balança chega a soar meio irresponsável. Mas esta é apenas a minha visão. Discordâncias são bem-vindas.

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