Hollywood

Histeria de montagem camufla as ótimas ideias expostas do dramatugo David Mamet para o cinema comercial ou de arte

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08 de junho de 2017

Sempre um ator famoso, no mínimo, como um chamariz, que se reveza, – em um mesmo papel-, com um ator de teatro -, sempre com mais potencial e trajetória cênica-, a repetição de uma estética cênica -seja nos objetos, mobiliários, ou na disposição física em corredor/passarela, e a manutenção de sua esposa como atriz; estes parecem ser os maiores conceitos, – e os verdadeiros motes – que conduzem a trilogia de David Mamet proposta pelo autor e diretor Gustavo Paso. Iniciada com Oleanna – a melhor das três montagens-, que apresentava um frescor de originalidade, uma atmosfera densa, e atuações contundentes, em um bom jogo de ator e texto. Nesta primeira montagem parecia que iríamos ter novidades na progressão de uma ideia bem sucedida, e muito bem-vinda. Apesar da aparente boa intenção da montagem original, o que se viu a seguir foi uma má imitação de si mesmo, e um esvaziamento de repetição de ideias, não tão originais de encenação. Marcas simples, iluminações rotineiras, cenários repetidos, atores histéricos, e aos berros, um gritando mais alto que o outro, e tendo pouco a se saborear do texto, de suas ideias. Nenhuma sutileza ou arcos dramáticos tangíveis. Respiração. Nenhuma. Tudo em uma enxurrada só. Assim é “Hollywood” de David Mamet – no original “Speed-The-Plow” -, com tradução de Flavio marinho e Gustavo Paso, em cartaz de quinta a domingo no Teatro Poeira. A peça, segundo o seu release, fala sobre dois executivos ávidos por um sucesso de bilheteria – Tony Miller (Claudio Gabriel) e Daniel Fox (Ricardo Pereira e Gustavo Falcão) -, que incorporam muitos estereótipos de outros personagens de David Mamet: trapaceiros, mascates, vigaristas e gangsteres. Mesmo assim, sem ao certo se saber se é verdade ou mais uma canalhice, eles mostram que querem conectar-se, compartilhar ideias e demonstram até certa dignidade. Porém, o texto faz alguns questionamentos: qual o papel das artes no mundo? O que é arte e o que é comercio?

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Os atores Luciana Fávero, Ricardo Pereira e Claudio Gabriel em cena de “Hollywood”.

O que se pode aproveitar de melhor de “Hollywood” são as ideias conflitantes, e a trama, de Mamet, entretanto as mesmas não as sustentam por si só. Temos a impressão de um grande déjà-vu. Um lugar comum, onde tudo parece muito igual, a tudo o que já foi visto em Oleanna. Ou seja, pela pouca inventividade cênica, a montagem fica muito aquém da obra principal, o que se traduz no pequeno público que preenchiam as poucas cadeiras do teatro, no dia de sábado, dia e horário nobre do teatro adulto carioca. Neste caso, uma boa leitura do livro seria muito mais profícua, do que assistir a uma montagem repetitiva e extremamente cansativa, que gira em círculos, até chegar a lugar nenhum; e nos deixando apenas a ideia simplista de que se é melhor fazer um filme blockbuster ou um filme de arte? O trabalho dos atores, ainda que pese uma direção muito desordena de Paso, nos revela uma atuação promissora de Ricardo Pereira. De grande entrega e empenho, em seguir a equivocada linha de direção; onde o maior embate dos dois personagens centrais parece o de ser a velha máxima de “ganhar no grito”. Aquele que mais alto falar vence o seu ponto de vista. Não por bons argumentos, já que os mesmos – de Mamet – ficam mascarados neste grande plano superficial. Claudio Gabriel também embarca com afinco nesta proposta, de grande histeria. Ficando a atuação de Luciana Fávero, – atriz de recursos limitados -, bastante apagada e desprovida de nuances e contrapontos necessários para diminuir o ritmo veloz que  imprime a montagem. Interessante é que a peça que pretende discutir comércio e arte, fica muito mais próxima do primeiro, ao manter uma concepção mais próxima de uma receita de bolo – como dito acima, no primeiro parágrafo -, do que de uma discussão séria, de artistas de fato sérios, que discutem de fato o papel da arte. Como que se manter essas ideias rasteiras de utilizar sempre um ator de nome – em revezamento, possivelmente por causa de grade em gravações de novelas -, a mesma atriz, o mesmo cenário e a mesma disposição física, fosse algo que realmente dialogaria com alguma qualidade de carpintaria cênica ou conceito e estética na arte teatral. Precisa de mais. Muito mais. E fechando a apresentação, que foi um tanto tumultuada com o autor e diretor da peça, sentando na plateia com familiares e amigos, onde faziam intervenções e comentários, em voz alta, um grande desrespeito ao público; temos também um “debate”, que parece muito mais um reforço daquilo que foi visto, um retorno se a plateia “gostou” ou “não da peça”; e ainda tendo uma fala deselegante em expor o ator Ricardo Pereira, a uma historinha de que se ele se sentasse a mesa com todos eles juntos, em um primeiro momento ele seria o mais atraente; e que em seguida, no decorrer do tempo, se veria que ele não é aquilo que parece ser. E não seria ele o escolhido ao final. Seja, para o que for. Vamos combinar que é um exemplo dos mais indelicados e dispensável em uma conversa após o espetáculo, diante de um público, ainda que muito pequeno. Ainda mais em um debate em que se fala rasteiramente de humanidade, de humanismo, como qualidade atribuída; porém, ser humanista não diz respeito só a arte, até porque o conceito, de humanismo extrapola todas as linhas do palco, da arte; e é preciso reverberar também em toda a nossa vida.

Ficha técnica

Elenco: Ricardo Pereira, Cláudio Gabriel, Gustavo Falcão (dividindo personagem com Ricardo Pereira quintas e sextas) e Luciana Fávero.

Direção: Gustavo Paso

Texto: David Mamet

Tradução: Flavio Marinho e Gustavo Paso

Cenário: Gustavo Paso

Figurino: Sônia Soares

Iluminação: Paulo César Medeiros

Trilha sonora: André Poyart

Produção e realização: Paso D’arte e Cia Teatro Epigenia

 

 Serviço

Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Bilheteria funciona de terça a sábado – das 15:00 às 21:00 e domingos das 15:00 às 19:00. Telefone da bilheteria: 21 2537-8053

Lotação: 160 lugares

Duração: 75 minutos

Classificação: 14 anos

Gênero: comédia

Temporada: De 04 de maio a 25 de junho – De quinta a domingo

Quinta a sábado às 21h00min e Domingos às 19h00min.

Valores: R$ 60,00 – inteira – quinta e sexta / R$ 70,00 (inteira) – sábado e domingo

OBS: Quintas e Sextas com Gustavo Falcão, Luciana Fávero e Cláudio Gabriel/ Sábados e domingo com Ricardo Pereira, Luciana Fávero e Cláudio Gabriel – Na primeira semana da temporada Ricardo Pereira estará em cena de sexta a domingo).

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 2