Holocausto Brasileiro

Documentário baseado no livro homônimo relembra os horrores do hospital psiquiátrico de Barbacena

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16 de outubro de 2016

Em 1979, o cineasta Helvécio Ratton e o jornalista Hiram Firmino visitaram o Hospital Colônia de Barbacena, administrado pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – FHEMIG. Fundado em 1903, o hospital era uma instituição psiquiátrica e recebia pacientes que sofriam de problemas respiratórios e outros males (especialmente os de origem emocional ou mental), que corriam para a região a fim de se tratarem, confiantes de que o clima de montanha e o ar bucólico da cidade tinham propriedades medicinais.

Holocausto Brasileiro

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A visita de Ratton e Firmino, contudo, revelou um quadro degradante, expondo o tratamento desumano que era dispensado aos pacientes. Munido de sua câmera, Ratton rodou o mini documentário “Em nome da razão” (1979), e Firmino redigiu o livro “Nos porões da loucura”, uma série de reportagens que lhe valeram o Prêmio Esso de 1980. Ambos documentaram uma realidade dura e cruel, imposta a uma gama de pessoas que incluía pacientes com distúrbios mentais e pessoas que eram depositadas ali pelos mais variados motivos: comportamento inadequado, gravidez indesejada, pequenos delitos etc. Pouco depois, em visita ao complexo, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, um dos profissionais mais respeitados dessa área do conhecimento, comparou o Hospital Colônia de Barbacena a um campo de concentração. Alguns anos mais tarde, o estabelecimento encerrou definitivamente as suas atividades, contando assombrosas 60.000 mortes durante as suas quase oito décadas de existência.

Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro

Apesar disso, os horrores do Colônia permaneceram desconhecidos para boa parte dos brasileiros até 2013, quando a jornalista Daniela Arbex lançou o livro “Holocausto brasileiro”, que serve de base e dá nome a este documentário, dirigido por ela em parceria com Armando Mendz. Na maior parte do tempo, o filme funciona como uma transposição da obra para as telas, mas o que poderia ser um problema se torna uma das suas grandes virtudes. As imagens dão uma dimensão mais ampla da barbárie praticada naquele espaço e uma identidade mais palpável às vítimas diretas e indiretas desses abusos, tornando as denúncias do livro ainda mais contundentes e chocantes. Apresentando documentos, registros da época e do estado atual do prédio, o filme de Arbex e Mendz cria uma atmosfera de revolta e angústia, despejando sobre o público um peso imenso e sufocante.

Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro

O documentário reúne depoimentos de funcionários da época e de pessoas que de alguma forma tiveram ligação com o hospital, mas é ao dar voz às vítimas desse campo de concentração que os diretores cumprem o seu principal propósito: nas palavras da diretora, “fazer com que o Brasil conheça uma das suas piores tragédias”, que envolveu inclusive o tráfico de corpos entre a instituição e diversas faculdades de medicina do país, e o sequestro de crianças nascidas naquele ambiente. Uma tragédia que se fundava na ideia de que os “loucos” não podem conviver com os “normais”, uma tragédia que contou com a triste conivência das autoridades públicas, das instituições religiosas e da sociedade durante oitenta anos de violações aos direitos humanos mais básicos, e que ainda hoje encontra eco no higienismo latente do brasileiro.

Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro

Por tudo isso e por todos os questionamentos que provoca, “Holocausto brasileiro” merece desde já um lugar de destaque na valiosa filmografia dos documentários nacionais, preferencialmente ao lado de “Em nome da razão”.

Festival do Rio 2016 – Retratos Falados

Holocausto Brasileiro (Holocausto Brasileiro)

Brasil, 2016, 90 minutos

Direção: Armando Mendz, Daniela Arbex


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