‘HOMEM-ARANHA: DE VOLTA AO LAR’: UMA TEIA DE HORMÔNIOS E BOAS IDEIAS

COM FOCO NOS DILEMAS DA JUVENTUDE, “HOMEM-ARANHA: DE VOLTA AO LAR” É UMA LEVE AVENTURA GERACIONAL COM MEMORÁVEL ATUAÇÃO DE MICHAEL KEATON.

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06 de julho de 2017

Custa um tempinho até vermos o rosto do novo Peter Parker em “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, porque o olhar do diretor Jon Watts está embevecido demais com Michael Keaton para isso – e é compreensível. Há, ali, diante dele um mito e, ao mesmo tempo, um profissional muitas vezes subestimado correndo atrás do atraso para provar o quanto soube envelhecer bem. O ator que faz Adrian Toomes é o Michael Keaton calejado de “Birdman” (a obra-prima de Alejandro González Iñárritu), um astro no apogeu. A mesma gana que viu em Kevin Bacon, ao filmar o cult “A Viatura”, Watts tem diante de si em Keaton, o que permite a eles criar o mais sólido – e humanizado – vilão de toda a franquia Aranha. O Dr. Octopus feito por Alfred Molina em 2004 era o mais próximo da perfeição que a série milionária, inspirada no herói criado por Stan Lee em 1962, conheceu. Mas Keaton vai além dela. Por isso, Tom Holland pode esperar para parecer. Por melhor que ele seja – e põe melhor nisso – o filme foi roubado pelo Abutre e por uma delicada (e mais do que urgente) preocupação em ser multirracial, dando à atriz negra Laura Harrier (impecável) o posto de mocinha. Ela é Liz, o objeto do afeto do Amigão da Vizinhança. É a primeira afro-americana a fazer o peito de Parker bater.

De Batman a Abutre: o apogeu de Michael Keaton, um dos atores mais subestimados do cinema (Foto: Divulgação).

De Batman a Abutre: o apogeu de Michael Keaton, um dos atores mais subestimados do cinema (Foto: Divulgação).

Despreocupado de ter que recontar origens, ao contrário do que Marc Webb fez no traumático díptico com Andrew Garfield como o teioso, Watts dispôs aqui de uma paleta de cores mais ampla para nos lembrar que o Escalador de Paredes é um ícone do Complexo de Peter Pan. No eterno retorno da máxima quadrinística de que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, Peter Parker é a metáfora viva do aprendiz, do retrato do artista enquanto jovem. E seu mundo deve espelhar essa exasperação jovial. Watts, apoiado na saturação cromática da fotografia de Salvatore Totino, realça o tom teen da grife aracnídea. Sai o timbre épico da trilogia de Sam Raimi e fica uma exasperação visual e narrativa típica de quem vive a impaciência hormonal dos 14 anos. Até a Tia May perdeu suas madeixas grisalhas e ficou mais moça – e afrodisíaca – na pele de Marisa Tomey.

Tom Holland acerta o tom do personagem (Foto: Divulgação).

Tom Holland acerta o tom do personagem (Foto: Divulgação).

Repetidas vezes, neste longa-metragem cheia de referências visuais às redes sociais, Parker manda mensagens de whatsapp a Happy Hogan (o dire-a-tor Jon Favreau) para saber em que estágio está em sua evolução Hogan trabalha para Tony Stark, o Homen de Ferro, de novo vivido por Robert Downey Jr., que aparece na medida certa, sem pavonices excessivas. Essa obsessão de Parker em consultar seus mestres é a metáfora do filme, sintetizando o ar disperso do protagonista (brilhantemente delineado por Holland) e do próprio filme, que parece clamar pela aprovação dos fãs da fase de Raimi.

Homem-Aranha com o “mestre” Homem-de-Ferro (Foto: Divulgação).

Homem-Aranha com o “mestre” Homem-de-Ferro (Foto: Divulgação).

É merecida a bênção deles não só pela proximidade com que Watts e Raimi enxergam dilemas escolares (e as variáveis étnicas da população dos EUA, integrando cores e raças), mas pelas virtudes no domínio da ação e do humor. Os embates com o Abutre – um vilão que é gente, cheio de contradições – esbanjam adrenalina. É um filme acertos, vitaminado, em sua versão brasileira pela voz do genial Garcia Júnior dublando Keaton.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5