Homem-Aranha: No Aranhaverso

Uma das melhores animações dos últimos tempos, bem como um dos melhores Aranhas da franquia

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15 de janeiro de 2019

*Que prazer é ver um filme tão redondinho e que respira novidade como “Homem-Aranha: No Aranhaverso” (“Spider-Verse” no original) de Peter Ramsey, Bob Persichetti e Rodney Rothman, com um enorme grau de desprendimento às regras do jogo, ainda assim respeitando o jogo. E isto dentro de uma franquia pré-estabelecida de vários filmes e intérpretes que já se sucederam a encarnar o herói… Franquia esta que já havia tido dois recomeços, nem sempre tão bem sucedidos. Quem diria, portanto, que uma animação a respeitar a mitologia de toda esta sopa de filmes diferentes do Aranha, e justamente brincando com as várias versões como parte de um único universo fracionado em dimensões paralelas, daria tão certo quanto “Homem-Aranha: No Aranhaverso”. — Algo típico da Editora Marvel nos quadrinhos, mas ainda não das adaptações para a telona… até agora!

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Que filme bem feito e caprichado. E que técnica linda em fazer uma homenagem nos efeitos da animação como se fossem desenhados na página de quadrinhos, obtendo até a impressão de porosidade da folha impressa, como se tivéssemos o prazer de virar a página! Até o pensamento dos personagens são muito bem aplicados com os efeitos de balão das HQs, mas não de forma engessada, e sim com auto-ironia, e auxiliando a sensação referencial de virar a página em que isso auxilia na montagem e até na fotografia. Sim! Animação possui fotografia apurada do nível de um live action, pois você precisa enquadrar as cenas e emoldurar sua decupagem da mesma forma, especialmente porque Nova Iorque continua personagem crucial das histórias do Aranha, e existe ali uma dedicação especial à pesquisa e a como retratar essa importante peça-chave.

É literalmente uma obra de arte este filme: desde a já mencionada porosidade da página ao peso do riscado no desenho que foi transposto como nunca antes, uma autêntica adaptação das páginas dos quadrinhos, do enquadramento da diagramação ao balãozinho de pensamento dos personagens para ancorar os cortes e passagens de transição entre cenas. Sem falar no plus das cores grafitadas para dar uma sensação bem Nova Iorquina como cidade-protagonista multiétnica. Que primor encantador.

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E talvez o melhor que pôde se inovar mesmo é justamente numa franquia cheia de revisões repaginadas, conseguir ter senso de humor em ser mais uma destas versões, na verdade, a versão que reúne todas as versões. Não só por citar e homenagear cenas de vários filmes anteriores, como por conseguir ser inteligível mesmo para o espectador mais leigo. Podem acreditar, fiz o teste com pessoas que não conhecessem absolutamente nada, e o rendimento foi de 100%, inclusive com leigos. O filme entretém sem parecer didático por conter todas as regras ordenadas da própria lógica que funciona nesta obra redonda e bem lapidada. Talvez justamente por não conter apenas um Aranha, mas vários, muitos que as pessoas mal conhecem, mas cujo carisma é bem aplicado cheio de representatividade para agradar e criar identificação com todos, sejam Aranhas mulheres, oriental, negro, latino, mais velho e etc. Representação extremamente variada e genuína (como a Cidade de Nova York de fato representa na realidade). Até Tia May e Mary Jane são bem exploradas, mesmo como coadjuvantes de luxo.

Há de se falar à parte, contudo, que muito da modernidade descolada e inovadora não seria alcançada sem o filme se filiar ao atual reconhecimento das mídias hegemônicas à cartilha de influências da cultura negra. A negritude e a urbanidade das ruas é essencial aqui, seja na cultura do grafite, da música na trilha diegética e extradiegética, até mesmo da sonoridade da voz e atitude como tecnologias de sobrevivência contra o racismo estrutural que insiste em tentar apagar as histórias negras. O Aranha sempre foi o “amigo da vizinhança”, mas talvez esta seja a primeira vez em que ele de fato reflita a vizinhança que o cerca, sendo latino e negro, na figura do personagem de uma dimensão alternativa muito popular atualmente nos quadrinhos: Miles Morales. E sua família é muito bem escrita para criar novos desafios na mitologia canônica do famoso herói cabeça-de-teia — especialmente o tio na voz original do multipremiado Mahershala Ali (“Moonlight – Sob a Luz do Luar”). Vale citar inúmeras participações especiais de vozes incríveis no elenco de dubladores originais, que demonstram de novo a boa aplicação da diversidade no elenco, para contrastar culturas e dimensões de influências que Aranhas variados podem exercer (vide ao final do presente texto).

Sem falar no emocionante tributo ao grande criador da maioria dos grandes heróis e heroínas da Marvel, Stan Lee, que se foi em 2018, e que ganha uma cena bastante merecida num dos melhores momentos do filme.

Confira abaixo o incrível elenco de vozes:

  • Peter Parker (noir): Nicolas Cage.
  • Peni Parker: Kimiko Glenn.
  • Wilson Fisk / The Kingpin: Liev Schreiber.
  • Doc Ock: Kathryn Hahn.
  • Green Goblin: Jorma Taccone.
  • Scorpion: Joaquín Cosío.
  • Peter Parker / Spider-Man: Chris Pine.
  • Mary Jane: Zoë Kravitz.
  • Tia May: Lily Tomlin
  • Gatuno: Mahershala Ali
  • Gwen Stacy: Hailee Stainfeld
  • Miles Morales: Shameik Moore
  • Jefferson Davis: Brian Tyree Henry
    Mãe de Morales: Luna Lauren Velez

*originalmente publicado no dia 13 de janeiro de 2019 por Filippo Pitanga no Almanaque Virtual

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