Homem-Peixe

Super-herói do cotidiano

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25 de janeiro de 2017

20° Mostra de Cinema de Tiradentes  — Mostra Olhos Livres

“Homem-Peixe” de Clarisse Alvarenga pode até ter a palavra homem e um hífen com algum animal no título, mas não é um filme de super-herói como ‘Homem-Aranha’ ou ‘Homem-Morcego’. Ou, na verdade, é. De heróis da vida real, do cotidiano, cujo sacrifício trágico é os descendentes de uma família terem se afastado da terra natal na Bahia para provavelmente procurar por trabalho em Minas, ter estabelecido nova família e nunca mais voltar, privados de suas raízes geográficas. Este tipo de herói não costuma receber o devido reconhecimento nem lugar de fala, mas que a diretora Clarisse Alvarenga tentou ajudar na difícil tarefa de documentar natural e contemplativamente o resgate do personagem-título que sai pela primeira vez do interior de Minas para conhecer onde seus ascendentes moraram na Bahia, uma realidade muito brasileira de retirantes e de imigração de mão-de-obra em busca de terras produtivas para sobreviver. Da terra à água, do plantio ao mergulho e pesca.

Ecoando inspiração paradisíaca no brilhante filme “Ventos de Agosto” de Gabriel Mascaro, a diretora primeiramente toma um curso visual de se estranhar, porém mais tarde explicado. Usando de captação de luz natural ou ambiente, as imagens filmadas em Minas, ainda mais em um período de chuvas, ou seja, foram filmadas em suma dentro de casa, possuem uma qualidade intencionalmente desgastada e granulada perante a estonteante natureza a céu aberto diante das praias da Bahia com cenas filmadas apenas em locações externas e sob o sol escaldante. Raras são as cenas internas na Bahia, o que explica bem o porquê da intenção em romancear as lembranças de uma terra onírica, pertencente ao sonho distante de onde partiu. (E por isso a entrada na Bahia tem como trilha o clássico dos anos 80 “Glory of Love” de Peter Cetera, cantando “we did all for love”….”fizemos tudo pelo amor”).

Algumas destas tomadas são tão lindas que esquecemos estar vendo um documentário naturalista, pois o que antes queria passar a impressão de orgânico ou quase amador, como com o microfone aparecendo para indicar não dar pra entender o protagonista perante o barulho das ondas, se torna uma fotografia milimetricamente planejada quase interferindo na naturalidade de seu retratado.

Sim, histórias comuns como esta são belos exemplos inspiradores dos cidadãos brasileiros que as plateias de cinema não costumam ter, mas só faltou um pouco mais de fio condutor e amarrar as lacunas propositais para ser mais direcionado ao que todos pudessem se identificar, pois às vezes perde um pouco o espectador na mera reprodução de práticas cotidianas regionalistas ou com sotaque tão carregado que uma legenda seria bem-vinda. Mas nada que a cena final não chegue a redimensionar mostrando a reação da família do “Homem-Peixe” assistindo ao documentário que a plateia também está assistindo, na telinha da TV deles, de frente para nós, a encarar os espectadores, num registro mútuo.