Hotel Mumbai

Bela obra do estreante Anthony Maras estreia em 11.7 no Brasil, com o título "Atentado ao Hotel Taj Mahal"

por

09 de junho de 2019

É quase impossível assistir a Hotel Mumbai, primeiro filme do realizador e roteirista australiano Anthony Maras, e não fazer paralelos entre ele, e uma triste realidade que se desenha no maior, e mais importante país da América Latina, em tempos atuais. Estamos vivendo em todo o planeta um grande movimento em que a roda parece querer voltar a girar à direita, e uma grande onda a querer nos levar de volta a um mundo extremista, de intolerâncias, onde os peões são usados através de artifícios sujos para se construir um exército de ódio, e de odiosos. Uma legião torpe, obtusa, que experimenta, entre outros, a falar em nome de Deuses, neste caso mais precisamente de “Alláh”. Estes falsos religiosos, monstros que não têm nenhum amor à vida alheia, vivem em vender uma enxurrada de conceitos raivosos, destrutivos, e que reduzem os seres humanos- que não comungam destes mesmos pensamentos deturpados-, a seres repugnantes, que precisam ser exterminados deste falso mundo ideal, construído por eles, em uma grande mentira universal. Um mundo de plástico, feito de pessoas hipócritas que pregam socialmente todos os modelos de virtudes, de fé, de famílias perfeitas, e que por “detrás dos panos”, estão blindadas para poderem realizar as maiores atrocidades em nome destes falsos moralismos e de Deuses; desde que as mesmas fiquem no perímetro do privado, “entre as quatro paredes”. Desta maneira, todas as sociedades do mundo produzem alguns destes monstros, destes Messias fakes, que elegem os seus perseguidos, para massacrá-los moralmente ou fisicamente. Seres estes, que são considerados verdadeiras pestes, e que precisam ser extirpadas do seio de nossa sociedade, onde só os demônios travestidos de falsos profetas, podem arrebanhar uma legião de desesperados, inúteis, desvirtuados, ignorantes que se agarram a qualquer coisa que possa aplacar as suas almas sebosas e suas existências medíocres e fracassadas. Assim é a espinha dorsal de Hotel Mumbai – que tem estreia prevista no  Brasil, no dia 11 de julho, com o nome Atentado ao Hotel Taj MahalMumbai, Índia, 2008.

Hotel Mumbai 02

Dev Patel tem excelente atuação como o garçom Arjun. Patel ficou mundialmente conhecido como o protagonista do filme “Quem quer ser um Milionário” dirigido para Danny Boyle.

Hotel Mumbai 03

Nazanin Boniadi tem ótima atuação como Zahra.

O grupo islâmico Lashkar-e-Taiba executou doze ataques pela Índia, concentrados principalmente na cidade de Mumbai. Os tiroteios e explosões deixaram 164 mortos e mais de 300 feridos. Durante os ataques terroristas ao famoso Hotel Taj Mahal em Mumbai, o renomado chef Hemant Oberoi e o garçom Arjun (Dev Patel em grande atuação) arriscam suas vidas para proteger as demais vítimas. Em meio ao caos, um casal de hóspedes se vê forçado a lutar por sobrevivência para salvar a vida de seu filho recém-nascido: David (Armie Hammer, em ótima atuação) e Zahra (Nazanin Boniadi também em ótima atuação) buscam algum meio de retornar ao quarto em que estão hospedados, já que nele está seu bebê e Sally (Tilda Cobham-Hervey em atuação muito delicada) sua babá. O luxuoso Hotel Taj Mahal, é bastante conhecido pela quantidade de estrangeiros e artistas que nele se hospedam.

Hotel Mumbai 01

Armie Hammer, tem também ótima atuação como David, o marido americano de Zahra, vivido por Nazanin Boniadi.

Hotel Mumbai 04

Dois dos dez homens responsáveis pelos atentados em diversas regiões na Índia. Esta cena acontece no saguão do Hotel Taj Mahal, onde realizam um grande banho de sangue – um massacre – aos funcionários e hóspedes do Hotel.

Através de ligações telefônicas, o chefe de operações dos terroristas islâmicos, monitora uma dezena de soldados fanáticos, diga-se de passagem, não apenas pelo amor e devoção à fé, mas também, os mesmos monitoram, ao mesmo tempo, as suas famílias, para saberem se o dinheiro prometido pelos atentados já haviam sido depositados. Uma esculhambação de proporções gigantescas com o que entendemos da verdadeira fé. Estes soldados lá estão em nome de quem? Da justiça? De um acerto de contas? De Alláh? De dinheiro? A direção de Maras consegue construir toda a tensão necessária para nos prender durante os 125 minutos de projeção. Terror,  cenas realistas de massacre muito bem filmadas, interpretações absolutamente na medida, conseguem transmitir a dor e o sofrimento que todas as vítimas, uma a uma, estão a passar. O roteiro também de Maras – com colaboração de John Collee – é muito bem escrito, onde nada do que é visto, nos faz desacreditar na ocorrência dos fatos; por mais absurdos que eles sejam, eles são absolutamente críveis e verossímeis. Conseguimos ficar com o nosso coração em suspenso, ao mesmo tempo em que conseguimos refletir cada um dos passos que são dados pelos horrores fundamentalistas do filme. É muito clara a construção do ódio aos opressores, e de como foram eles os responsáveis em tirar tudo de mais valioso no mundo para eles, e os deixar nesta miséria social e existencial. Não que isso seja inverdade; porém os métodos adotados por este exército extremista de fanáticos religiosos, usam todos os piores conceitos de reclamação e justiça sangrenta com as suas próprias mãos. Sem tática nenhuma, sem estratégia alguma. Um exército de despreparados que só tem como “qualidade” um imenso arsenal armamentista, e muita munição. E é esta a configuração que parece querer se desenhar em uma nação que responde pela 8a economia do mundo.

Entretanto, o absolutamente tocante no filme, além de uma ótima realização técnica, é poder ver os dois extremos da fé. Uma delas para o mal e a outra para o bem. Duas energias fortes, em direções contrárias. Uma cega e desestruturada; e a outra muito mais firme e decidida. Uma guiada pela burrice, e a outra pela inteligência e o bom senso. É louvável a entrega, e a devoção que os funcionários do Hotel Taj Mahal têm para com os seus hóspedes, que são pelo lema do Hotel, tratados como verdadeiros Deuses. Esta forma de conduta, no momento da grande tragédia, é tratada com todo o respeito à liberdade de escolha de cada um dos funcionários, faz com que grande parte deles decida espontaneamente defendê-los e dar as vossas vidas por eles. Em nenhum momento as vossas posturas são de subserviência ou obrigação, mas sim, de um exército do bem que pode lidar com todas as estratégias para manter em segurança e tentar salvar grande parte dos hóspedes, já que eles têm conhecimento de todo o mapa geográfico do espaço; e os atacantes não tinham nada além de ódio em excesso, ou inteligência para formular um plano infalível. Melhor para os hóspedes e funcionários do Hotel que lutam bravamente pela vossa sobrevivência. Isto impressiona muito. É de grande força e potência. A força mental e a esperança empregada por cada um deles, mesmo em imensa desvantagem, e com um massacre visto a olhos nus. Cada um, cada vida, vale muito. Ainda que possam restar poucas possibilidades, a luta dos dois lados irá até o fim.  Essa é a grande vitória do filme. Não a de salvar todos os reféns diante de todos os dementes, mas sim o de lutar até o fim, até o último instante, onde ao menos um possa restar. Onde uma pequena chama possa manter o lume acesso e possa ter alguém a plantar uma semente para um mundo melhor após ser a testemunha viva de uma barbárie, um genocídio de proporções épicas.

Ficha técnica

Título original: Hotel Mumbai

Classificação M/14

Duração: 125 min

País: Austrália, Singapura, Estados Unidos da América

Género: Thriller, Drama

Data de estreia: 23-05-2019

Realização: Anthony Maras

Argumento: Anthony Maras, John Collee

Produção: Cyan Films, Electric Pictures, Hamilton Entertainment, Thunder Road Pictures, Xeitgeist Entertainment Group

Elenco: Anupam Kher, Armie Hammer, Dev Patel, Jason Isaacs, Natasha Liu Bordizzo, Nazanin Boniadi

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 5