Iluminismo do desejo

Renomado na Europa por sua aposta autoral no distanciamento crítico, o diretor Benoît Jacquot, possível escolha para o júri de Berlim, desconstrói o mito de Casanova em longa cotado para o fórum anual da Unifrance

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03 de janeiro de 2020

O realizador parisiense de 72 anos ataca o sexismo ao retratar o crepúsculo do corpo

O realizador parisiense de 72 anos ataca o sexismo ao retratar o crepúsculo do corpo

Rodrigo Fonseca
Embora o Festival de Berlim não tenha anunciado os jurados de sua 70º edição, agendada de 20 de fevereiro a 1º de março, o nome de Benoît Jacquot anda rolando pelas bocas de olheiros das grandes mostras de cinema da Europa, em sintonia com o prestígio do realizador francês, hoje em cartaz no Brasil, com “O último amor de Casanova”. Lançada às vésperas da virada, em 26 de dezembro, essa delicada produção será um dos destaques do Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, evento idealizado para atrair os holofotes mundiais para a nova safra da França no audiovisual. Sua vitalidade e diversidade de gêneros serão celebradas de 16 a 20 de janeiro em Paris. Estima-se a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de veia autoral (como o mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian e a badalada investigadora existencial Justine Triet). Jacquot é um dos medalhões que vão passar pelo painel de tendências estéticas concentrado no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá será a sede da 22ª edição do Rendez-vous, fórum realizado anualmente pela Unifrance. Esse é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, a Unifrance promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções cinematográfica. No início do ano que vem, emissários de 70 filmes (e esse número deve aumentar) vão passar pelas ruas parisienses, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com cerca de 120 jornalistas de 30 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo.

Passarão pelo evento bambas de múltiplos talentos. Tem: Céline Sciamma, ganhadora do prêmio de melhor roteiro de Cannes com “Retrato de uma jovem em chamas”; Michel Hazanavicius, o ganhador do Oscar por “O Artista” (2011), com “Le Prince Oublié”, estrelado por Omar Sy; o veteraníssimo Claude Lelouch, que vai exibir a terceira parte de seu “Um homem, uma mulher” (1966), chamada “Les plus belles années d’une vie”; e Alice Winocour, com “Próxima”, produção sobre dramas de maternidade de uma astronauta (Eva Green) que deu à cineasta o Prêmio Especial do Júri em San Sebastián. E tem Jacquot, que disputou o Urso berlinense em 2018 com o suspense “Eva”. Agora, sua decisão de adotar como protagonista um mulherengo profissional, como italiano Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798), nestes tempos de revisão crítica dos conflitos de gênero, soa como um suicídio artístico. Ou como uma proposta (sadia e lúdica) de devassar o sexismo.

Mas foi uma escolha perigosa mesmo alguém com o currículo do francês Benoît Jacquot, três vezes indicado ao Urso de Ouro de Berlim; quatro vezes escalado para disputar o Leão dourado de Veneza; famoso por sucessos como “Escola da Carne”, destaque de Cannes, em 1998. “O Último Amor de Casanova” tinha tudo para ser uma dor de cabeça, porém, tornou-se um ímã de elogios e bilheterias polpudas. “Tudo é um modo de olhar”, alerta o cineasta de 72 anos, em entrevista por telefone ao Almanaque Virtual. “Você pode ver um culto a um sedutor que colecionou paixões ou pode olhar mais atento e enxergar um símbolo de uma aristocracia com o prazo de validade vencida que começa a notar as rugas, as pelancas e a perda de potência em seu corpo. Eu preferi essa segunda visão”.

 

“Dernier Amour”, título original da luxuosa produção que marca a volta do diretor de “Adeus, minha rainha” (2012), é um filme sobre o ocaso da exuberância física, representado por um processo de desmistificação empreendido por Jacquot e seu protagonista, Vincent Lindon. “Existe uma ferramenta essencial que o silêncio me traz, como ator, que é a chance de levar o público à perplexidade. Um indivíduo é tudo aquilo que ele não diz”, explicou Lindon, em um papo em Cannes, onde ele foi laureado com o prêmio de melhor ator, há quatro anos, por “O valor de um homem”. “Gosto de personagens que vivam no dilema moral entre o fardo trágico da excelência, da grandeza, e o abismo das fragilidades internas”.

 

Casanova Dernier Amour Casanova
Em 2013, Jacquoit veio ao Rio de Janeiro para uma palestra ao lado do diretor Walter Salles, no Instituto Moreira Salles, e saiu impressionado pela maneira como os cariocas, aparentemente, institucionalizaram o tesão nos corpos à mostra, na relação mais aberta com a libido. Casanova é um homem que, ao contrário do que sua lenda sugere, lidava com o querer de uma maneira estratégica: seu cortejo era menos celebrativo e mais compulsivo, numa necessidade de afirmação de sua posição na pirâmide social e na relação com os outras figuras do sexo masculino. Por isso, em sintonia com os novos tempos, Jaquot preferiu esmiuçar essa natureza desse aristocrata como um conflito emocional e existencial.

“Fellini fez uma deliciosa versão de Casanova, nos anos 1970, com Donald Sutherland, mas que carregava muito de sua aversão à figura de Giacomo. É um filme que o ridicularizava. Aqui, a partir das leituras que fiz, eu preferi um outro caminhos, menos avesso ao personagem. Minha questão não é falar do conquistador e, sim, de um nobre que, com a chegada da velhice, passa a se conectar com seus sentimentos, indo além das ordens de seu instinto”, explica o diretor, que começou sua carreira fazendo um documentário sobre Lacan, em 1974.

Na trama do longa, estamos no século XVIII, em meio a uma viagem à Inglaterra, regada a sexo, ostra e tortas cheias de glacê, o nobre tem um embate com uma jovem cortesã, Chapillon (papel dado a Stacy Martin, de “Ninfomaníaca”), que quer usá-lo em um joguete em busca de um dinheiro de que precisa. As negativas da moça em cair na lábia do aristocrata dão a ele um combustível romântico, que incendeia seu espírito inquieto. Jacquot apela para uma edição mais ligeira do que seu tempo narrativo habitual, apoiado no refinamento da montadora Julia Gregory. Na fotografia cheia de chiaroscuros de Christophe Beaucarne, garante ao diretor de “Eva” (2018) a mesma elegância visual que ele demonstrou em “Adeus, minha rainha” (2012). O diferencial aqui é o mar de sensações que Lindon desagua sobre nós a cada olhar.

“Todo filme, seja o mais fabular possível, tem algo de documental em sua natureza, em seu esforço de mapear relações humanas de afeto, seja pelas vias do Poder, seja pela harmonia dos desejos. Temos nessa história de Casanova um documento sobre uma herança do Iluminismo e sobre as trevas morais da aristocracia europeia. Mas esse documento não tem uma natureza arqueológica, de mimetizar o passado. Ele parte do passado para falar das inquietações de gênero e mesmo das contradições sociais de classe que estão entre nós até hoje”, diz Jacquot, que teve como coprodutores os aclamados irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, cineastas belgas laureados com duas Palmas de Ouro, por “A Criança” (2005) e por “Rosetta” (1999). “A parceria com eles foi um gesto de amizade e um caminho de repensar, a partir da experiência deles, a dimensão do realismo em uma narrativa histórica”.