Impressões iniciais (das boas) sobre ‘O Doutrinador’

Na mira da tensão, o cineasta Gustavo Bonafé, em parceria com Fábio Mendonça, demonstra maturidade, arranhando o limite da polêmica, com sua adaptação para a cultuada HQ de Luciano Cunha, rica em adrenalina e farta em reflexão antropológica

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23 de outubro de 2018

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Rodrigo Fonseca
Diante da epidemia de falta de paciência, frente a posições políticas contrastantes, que hoje transforma as redes sociais em campos de batalha, é provável que discursos de ódio ofusquem a virtude mais notável entre as múltiplas qualidades (estéticas e conceituais) de “O Doutrinador”: a exuberância em sua direção. E não se trata apenas de rigor plástico nas cenas de perseguição, de trocas de tiro ou de combate corpo a corpo (à la “True lies”). Em sua estreia como realizador titular, em um esquema de codireção com Fábio Mendonça, o cineasta Gustavo Bonafé (parceiro de Johnny Araújo em “Chocante” e “Legalize já!”) escava camadas antropológicas riquíssimas na versão para as telas do anti-herói das HQs criado por Luciano Cunha.

Antes de tudo, estamos diante de um filme de ação trágico, onde a dor e a revolta (sem redenção) são embriões do justiçamento em tela – como se via nos anos 1980 e 1990 em thrillers de paladar amargo como “Vingança forçada” (1982), com Chuck Norris, ou “Jogo bruto” (1986), com Schwarzenegger – todos estes ancestrais de “Shane – Os brutos também amam” (1953). E estamos diante de uma radiografia moral de um Brasil FICTÍCIO, ainda que bem parecido com o do mundo real, onde não se falam em partidos, nem em políticos específicos da Brasília de carne e osso. Os vilões aqui não são as pessoas que assumem cargos de governo calçadas na sensação de onipotência. A vilã aqui é a Corrupção, encarada em maiúsculo, como Mal mítico, porém também como deformação da genealogia da moral brasileira, inerente à alma de nosso povo. Nesse ponto, Bonafé, apoiado num roteiro de variadas (e sólidas) mãos, vai a “Raízes do Brasil” para expor a velhacaria disfarçada no riso de cinismo do “homem cordial”. O que mais (e melhor) salta das franjas de arrebatadoras cenas de luta e troca de tiros é a dinâmica dos velhacos que se completam num jogral de autorregenaração da roubalheira institucionalizada.

Dizia o escritor Rafael Sabatini (de “Scaramouche”) que, sempre em que o mundo se mostrar louco, o herói será reconhecido pelo senso de humor. Mas, esse mundo de impotências institucionais esquadrinhados por Bonafé não é louco: é intolerante, é individualista e é alheio à caridade. Sendo assim, nele não há humor… nem heróis. Há apenas um mascarado que perdeu a própria dimensão da ética: sem ela, resta a ele matar aquilo que lhe hostiliza. Ou seja, onde deveria haver heroísmo, há dúvida. De tudo se duvida na dramaturgia de “O Doutrinador”. Só não se duvida de que, na torpeza, Bonafé encontrou um personagem singular, defendido com maturidade, responsabilidade e maestria por Kiko Pissolato. Lembra até os bons desempenhos de Viggo Mortensen sob a direção de David Cronenberg, tanto em “Marcas da violência” (2005) quanto em “Senhores do crime” (2007), pelo tormento.

Com estreia prevista para 1º de novembro, “O Doutrinador” ganha carne, pele, suor e sangue pelo somatório dos talentos de um esquadrão de roteiristas, incluindo nas suas fileiras próprio Luciano Cunha e Gabriel Wainer (idealizadores do projeto), ao lado de Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Rodrigo Lages, Guilherme Siman e Denis Nielsen. Neste momento em que comédias e filmes religiosos são o maior nicho de venda de ingresso no país, a chegada de um Cavaleiro das Trevas de DNA brasileiro pode abrir um novo e rentável filão na ficção. A julgar pela boa resposta do público na pré-estreia do RJ, o bom resultado de público pode se tornar realidade rapidamente, mas acompanhado de muita polêmica. As catarses que o filme pode provocar vão rachar opiniões. Mas é importante que esse racha não dilua o fato de que um cineasta com muita solidez está emergindo ali. Diferentemente do Capitão Nascimento de “Tropa de elite”, que era um samurai com um bushidô (código de conduta) alinhado e incontornável, o protagonista aqui, Miguel Montesanti (papel de Pissolato), é um Quixote à moda de Artaud, um suicidado da sociedade, que enfrenta um moinho de vento chamado Corrupção. Ele está mais para o Vigilante da DC Comics do que para o Justiceiro da Marvel – é mais sombra do que luz.

Na trama, a dor da morte de sua filha, por negligência de um hospital sem recursos, empurra Miguel – que é agente de uma força de polícia supertreinada – à Lei de Talião. Se a Justiça não zela pelo bem da sociedade, ele vai arrancar as tripas do Executivo e do Legislativo, com sua roupa de bate-bola, fazendo um carnaval de fogo. A fotografia de Rodrigo Carvalho, imune a saturações, dá à noite da metrópole ficcional do longa luzes da Gotham City hiperrealista de Christopher Nolan em “Batman begins” (2005). É uma fotografia precisa, sem vaidades, que jamais sufoca a direção, valorizando, nos enquadramentos, a boa participação das atrizes Tainá Medina (a hacker Nina) e Natália Lage (Isabela, a mulher de Montesanti). Esbanjando sordidez papel de um corrupto de carteirinha, Eduardo Moscovis tem uma deliciosa participação no longa-metragem. Igualmente carismática é a presença do sempre afiado Nicolas Trevijano (de “9mm São Paulo”).

Estamos diante de um espetáculo popular que é pólvora fresca. E que pode incendiar um debate rico sobre novas veredas para o nosso cinema. E ainda vai rolar uma série para o canal Space com o Doutrinador.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5
  • Diego Honorato

    Estamos precisando de um Doutrinador na vida real. Um não…uns 500