Inabitáveis

Transfiguração metafísica de campos e extracampos decoloniais

por

26 de janeiro de 2020

FB_IMG_1580051144449

Transfiguração metafísica de campos e extracampos decoloniais

Como explicar a poesia? Como racionalizar o sentimento? Como expressar aquilo que lhe move e movimenta para além de seu corpo físico ou da razão material? Pode o cinema almejar algo além da imagem posta para alcançar a metafísica etérea da cosmopoética?

Parece pretensão querer encaixar a experiência de um filme em algo tão mágico… Porém, ao mesmo tempo, o poder sublime do cinema de abstrair da realidade ao mesmo tempo em que parte dela e a reinventa já se provou em alguns marcos inesperados como um feito quase tão simples quanto singelo; Inexplicável. E em parte foi assim que este a vos escrever se sentiu acachapado num repente por uma sessão temática de nome “A imaginação como potência” na 23° Mostra de Cinema de Tiradentes, e mais especificamente um curta-metragem final no qual a sessão inteira transbordou de modo abundante, desaguando mares e rios de emoção: e este curta foi “Inabitáveis do realizador capixaba Anderson Bardot. — o qual estreou hoje, por sinal, simultaneamente em Tiradentes e no Festival de Rotterdam, no exato mesmo dia.

A curadora Tatiana de Carvalho já havia explicitado em debate prévio sobre a curadoria desta edição que o tema escolhido este ano, da imaginação como potência, iria retratar a realidade com dispositivos que irrompessem licenças poéticas curativas e coletivas. Algo que só a metáfora criativa poderia dar conta do colapso de uma realidade individualista e neoliberal que não estamos conseguindo dar conta apenas com a câmera na mão, e cujo rompimento fabulativo representaria muitos dos filmes do restante das Mostras no Festival. É curioso atentar que esta prática de separar uma sessão de curtas de modo hors-concours pode parecer injusta, como já pareceu ano passado com a obra-prima “Quebramar” de Cris Lyra sem a possibilidade de ganhar um prêmio, já que estes filmes igualmente poderiam estar na competição principal e até ganhá-la. Porém, diante da liberdade de se escrever uma narrativa com a sequência projetada na telona com a reflexão destas obras, de fato se cria uma catarse muito mais poderosa do que a concorrência de uma sessão competitiva poderia contrapor ao invés de agregar. E estas histórias precisavam ser contadas de forma livre e comutativa.

Eis que esta sessão  trilhou uma trajetória transbordante, literal e figurativamente, pois tivemos narrativas imersas em afluentes e deságues, de modo a fazer seus personagens flutuarem ou fluírem através de quaisquer mazelas que pudessem ser lançadas sobre eles. Desde as duas protagonistas que desafiam com amor a perseguição policial numa das recentes manifestações sociais em “A Felicidade Delas” de Carol Rodrigues; ao documentário poético sobre o emprisionamento dos seres como peixes sufucando sem ar num aquário viciado, e onde a libertação só pode ser possível no resgate das origens e dos orixás em “Pattaki” de Everlane Moraes; à performance de personagem/realizador indígena que filma e é filmado por si próprio de modo tanto constitutivo como declaratório num manancial de palavras contrárias à sua existência em “O Verbo se Fez Carne” de Ziel Karapató.

Mas foi o quarto e último filme da sessão que completou a potência catalisadora desta tempestade redimensionadora, com o já citado curta-metragem “Inabitáveis” de Anderson Bardot. Um filme que bebe da fonte de todos os três anteriores, tanto na inundação de amor contra a opressão, quanto nas alegorias com os orixás e a chave da performance e da dança a ditar o ritmo da filmagem e da montagem para ressignificar os espaços que não lhe seriam dados pela realidade sem a imaginação. A premissa seria algo bastante direto e literal dentro de uma narrativa clássica: Uma companhia de dança está ensaiando um espetáculo de um casal composto por dois dançarinos a encarnar uma relação homoafetiva, o que geraria uma censura de 18 anos ao público, devido ao tema de sexualidade que a sociedade atual conservadora não quer nem debater nas escolas, nem instruir seus jovens a terem todo o conhecimento e diálogo para se sentirem bem com suas escolhas. Estamos vivenciando atualmente uma sociedade politicamente retrógrada, que voltou a impor modelos hegemônicos de padrões ultrapassados e desumanos, e que prefere silenciar e punir ao invés de dialogar e construir juntos.

Neste ponto que adentra o outro lado da trama e o outro núcleo central que dá corpo e identidade ao cartaz do filme (que pode ser conferido logo abaixo): Uma jovem estudante, que possui construção narrativa de forma fluida, ora referida no masculino e ora no feminino pelos outros personagens (apesar de seu desenvolvimento pessoal buscar a autodeclaração, na potência da intérprete Castiel Vitorino Brasileiro), passa a querer fazer parte da companhia de dança supracitada quando seu coreógrafo (interpretado pelo grande mestre capixaba Markus Konká) ministra uma aula para a escola da jovem. A aula falava sobre um dos maiores levantes por independência dos escravos no Brasil, ocorrido em Vitória no Espírito Santo, de modo a ler trechos literários sobre a época que comparavam o valor de mercado de uma pessoa escravizada com o de animais ou outros produtos. Algo que toda a cidade retratada em planos abertos no filme foi construída em cima deste mesmo trabalho escravo, e cujo racismo e intolerância precisam ser desconstruídos e reocupados até hoje na imaginação de seus principais monumentos de época.

É assim que a linguagem do filme inova e faz novas propostas visuais para dar conta da realidade insustentável, e todo o amor e identidades incontidas que narram estas histórias sob as camadas de construções escravagistas fazem com que se decolonizem os espaços através da dança e da montagem. A transfiguração destes seres através da ancestralidade, que vai ocupando não apenas os figurinos e a direção de arte como os movimentos e ritmos físicos dos corpos e câmeras, começam a circundar uma fotografia giratória como num ritual que transcrevesse o místico em técnica cinematográfica. Ora o gingado que acompanha aqueles corpos e se prolonga através deles gera uma fusão do entorno de prédios e arranha-céus em seus braços e dorsos e pernas, e ora os próprios espaços se transformam com o corte do plano em outro quadro já ocupando lugares completamente distintos, porém com os mesmos corpos como âncoras narrativas e referenciais de significação. Os dançarinos da companhia não estão apenas performando que se amam e se abraçam em celebração pelos pontos históricos da cidade, mas também estão reocupando um imaginário de perseguição que hoje precisa se colocar de forma interseccional, englobando raça, sexualidade, gênero, território e classe.

O fato de dois dançarinos homens se amarem e seu amor perpassar a linguagem temporal do cinema de modo que nulifique o espaço contido dos quadros é algo sublime diante da terrível realidade que estamos vivendo. Existe um evidente estudo de cinema e de técnicas de edição para montar um grande corpo coletivo de seres e vidas, de modo a aludir a grandes mestres do passado do cinema que também já foram invisibilizados e que são trazidos de volta à tona pela autodeclaração destas existências. A referência apurada, por exemplo, dos estudos de coreografia e dança filmadas nos filmes da cineasta ucraniana e vanguardista Maya Deren, como em “Meshes of The Afternoon” e “At Land”, de modo a que um corpo no cinema possa existir para além do campo, passando cenas e locações com um salto e com ajuda do corte na edição, faz com que este filme ecoe potências num coro plural de vozes e existências. Não estamos falando das típicas citações a mestres de um padrão estético-homogêneo ou da velha legitimação do cinema clássico, e sim de narrativas por sob as camadas visíveis, como numa corrente de respiro que dá as mãos umas às outras.

Para além de Maya Deren, o próprio realizador chegou a evocar outras referências enunciadas de formas mais explícitas, como “Poison” de Todd Haynes, um cineasta que experimenta com a linguagem queer, lgbt e não binária… Bem como outros referenciais brasileiros de corpo, dança e orixás, ao menos na visão deste crítico que vos escreve, como a pedra filosofal e fundamental “Alma no Olho” de Zózimo Bulbul, além de “Um Filme de Dança” de Carmen Luz; a performance e a relação com a ancestralidade do cabelo negro em “Kbela” de Yasmin Thayná e mesmo o amor entre dois homens como metáfora da criação do próprio cinema como pode ser visto no novo cult “Ilha” de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Um filme que faz um inventário de linguagens e as trabalha com personalidade própria e em prol do texto e contexto de sua obra, e nunca ao contrário. Jamais preciosista, e sim existencialista, já posso declarar com plena convicção que este filme traz alguns quadros inesquecíveis, como a bolha em que Markus Konká performa sobre o horizonte panorâmico da cidade; ou a passagem de planos entre as lajes de prédios para igrejas e para densas florestas nas montanhas, ocupadas por figuras místicas que passeiam em questão de segundos, tudo num mesmo movimento corporal… Uma catarse decolonialista tão potente quanto o plano final da chuva que alaga e rompe as barreiras da opressão… Anseio por entrevistar seu diretor.

FB_IMG_1580051141928 FB_IMG_1580051170692