Inferninho

Casablanca é no Ceará, logo ali, entre Deus e o mar

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10 de setembro de 2019

À luz do 29º Cine Ceará, eu gostaria de recompartilhar meu texto para aquele que ainda acho o melhor longa-metragem cearense do ano: “Inferninho” de Guto Parente e Pedro Pedro Diogenes (originalmente publicada em 26/05/2019 durante o Cine Jardim – Festival de Cinema de Belo Jardim)! Faço isso com 2 razões:

A primeira é que o filme marca o final de um ciclo do Coletivo Alumbramento e continuidade das produções da Marrevolto Filmes, o que será celebrado HOJE (10/09) no Rio de Janeiro no Estação NET de Cinema com o lançamento do livro “Fissuras e Fronteiras: O Coletivo Alumbramento e o Cinema Contemporâneo Brasileiro” de Marcelo Ikeda a partir de 19h, com exibição especial do filme sobre o Coletivo também realizado pelo autor.

A segunda é porque este filme coroa um momento especial do Cinema Cearense, que está tendo a sua Primavera da sétima arte no Brasil e no mundo (esperem por esperar texto meu muito em breve sobre isso, catalogando tudo). E “Inferninho” é o perfeito exemplo disso (premiado inclusive internacionalmente, como no Queer Lisboa), unindo-se a outros exemplos em 2019 como o premiado do Festival Cine Ceará, “Greta” de Armando Praça, o multipremiado em Festival de Cinema de Gramado “Pacarrete” de Allan Deberton, e, claro, não esqueçamos de “A Vida Invisível” de Karim Aïnouz, nosso representante Brasileiro ao Oscar 2020, já ganhador de melhor filme na Mostra Um Certo Olhar em Cannes. É o ano do Ceará, no cinema, na política de nossas vidas e no mundo.

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Sabem quando um filme chega no momento oportuno para dizer bastante coisa? Muito mais coisa do que está apenas colocada na tela… a despeito de na tela já haver muito a se comunicar conosco?! Cores, personagens, situações e até mesmo um grande romance, no sentido clássico da palavra (à la “Casablanca”), e igualmente reservando uma pitada de vanguarda e inovação no tempero! Este filme é “Inferninho” de Guto Parente e Pedro Diógenes, que estreou na última quinta-feira em circuito brasileiro e que também acaba de ser laureado mais uma vez com uma chuva de prêmios, agora no V Cine Jardim – Festival de Cinema de Belo Jardim em Pernambuco.

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Porém, se a obra chega legitimada com todo este gabarito, a verdade é que um filme se faz de gente, e às vezes é com a gente que se está falando diretamente. Você, espectador, foi o grande escolhido no assento do cinema para entrar na tela e viver uma história distante, e ao mesmo tempo próxima da sua, tal qual “A Rosa Púrpura do Cairo” de Woody Allen. – Só que estamos falando aqui do Brasil, mais especificamente da região do Nordeste, no Ceará.

Minto. É melhor fazer uma ligeira correção. Não é bom começar um texto faltando com a absoluta verdade. Quando digo que a história se passa no Ceará, na verdade se passa em qualquer lugar do mundo, até mesmo numa dimensão paralela onde tudo pode acontecer num piscar de olhos, pois nada é definido especificamente. Nela, tudo é crível e incrível. E ao mesmo tempo também estamos falando do Ceará, de uma equipe local e de locações e produção pertencentes ao lugar de fala deste paradisíaco território. Estamos falando também da Primavera do Cinema Cearense despontando no Brasil e no mundo, com produções regionais de receptividade universal, e com recorde na produção recente de longas-metragens e de lançamentos no circuito comercial – sem falar em algumas das maiores bilheterias da história, principalmente pela forma como os filmes do cineasta Halder Gomes conseguem tocar o público atualmente (como “Cine Holliúdi 1 e 2” e “Shaolin do Deserto”).

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Porém, antes mesmo disto, quem primeiro chamou atenção para o Novíssimo Cinema Cearense decerto foram as produções da Alumbramento Filmes, composta por um coletivo de profissionais que começaram a dirigir, fotografar, montar, atuar e ocupar várias outras funções nos filmes uns dos outros. Foram vários filmes de amplo reconhecimento nesta jornada, como “Estrada para Ythaca”, “Com os Punhos Cerrados”, “Doce Amianto” e etc, mas que agora chegam a um final em seu clímax, com a última obra apresentada pela produtora, antes que cada membro siga seu caminho independentemente um do outro. E esta obra é justamente “Inferninho” de Guto Parente e Pedro Diógenes. – Vale ressaltar neste ponto que o ciclo a se fechar possui um livro comemorativo sendo lançado por agora abordando toda a história da Alumbramento, “Fissuras e Fronteiras: O Coletivo Alumbramento e o Cinema Contemporâneo Brasileiro” de Marcelo Ikeda; bem como o coletivo dá vida a novas formas com a iniciativa de produção chamada Marrevolto, da qual “Inferninho” também é um dos pontapés iniciais. Um fim e um começo englobados num mesmo ato.

Composto por ares pictóricos num tom barroco, é como se o filme tivesse sido desenhado à mão, das paredes e cortinas aos figurinos fantasiosos. E assim somos apresentados a uma espécie de bar e cabaré pertencentes à protagonista Deusimar (Yuri Yamamoto), aonde também habita uma gama de personagens esdrúxulos, alguns retirados do imaginário popular internacional, como super-heróis do naipe de Wolverine, Mulher-Maravilha e Homem-Aranha – todos convivendo em harmonia nas possibilidades entre o real e o delírio abrasileirado. Sim, personagens que seriam americanizados, o que, todavia, vai sendo reapropriado e reocupado para a nossa cultura a partir de uma grande mise-en-scène personalizada, atuações e trejeitos brasileiros, cearenses, e figurinos de invenção reciclada, de deixar Joãozinho Trinta orgulhoso de onde quer que esteja nos olhando. E o principal: uma fluidez de gênero que permeia todo o filme, com personagens que passeiam entre o masculino e o feminino com igual equilíbrio. Em nenhum momento é afirmado se os personagens são pessoas trans ou travestidas, apenas que ocupam um lugar natural da sociedade, inclusive a proprietária do bar Deusimar. Naquela dimensão tudo é possível, lembram?

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Aqui não há binariedade para controlar os personagens, nem maniqueísmos entre o bem e o mal. Seus microcosmos funcionam a partir de uma vontade livre de autodeterminação, e os únicos obstáculos são aqueles que os próprios personagens se impõem. Há de exemplo a dívida do platinado personagem do Marinheiro Jarbas (Demick Lopes), aqui lembrando muito o clássico papel crítico ao estrangeirismo colonialista de porto em porto de nosso galã baiano Geraldo Del Rey, que encarnava um sueco igualmente platinado em “A Grande Feira” de Roberto Pires; Ou mesmo o ciúme provocado em Deusimar pela personagem da cantora (Samya De Lavor, da poesia em transe “O Barco”, do também mestre cearense Petrus Cariry), a qual tenta seduzir o Marinheiro…

Esta fauna de personas, juntamente a Deusimar, formam a triangulação principal da trama, apesar de que inúmeros outros momentos revelarão atuações e diálogos memoráveis, principalmente o que já se convencionou denominar como o “monólogo do Coelho”, perto do final da projeção. Um momento arriscado sob os holofotes que interrompe a predominância do uso de plano-conjunto e de closes de rosto para entregar um discurso emocionante em plano sequência que talvez não existiria se a companhia de atores não fosse tão azeitada e se o intérprete do “Coelho”, Rafael Martins, não fosse um dos roteiristas junto com os dois cineastas que coassinam a direção de “Inferninho”. – E, pra completar o monólogo, o que seria um plano fixo se torna surpreendentemente num deslocamento de câmera no momento certo para mostrar a reação de Deusimar em toda a glória da interpretação interiorizada de Yamamoto colapsar em lágrimas debulhadas pelo público.

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Um filme cíclico, que vai descascando suas camadas em núcleos proporcionais de tempo e espaço encerrados unicamente dentro do estabelecimento do cabaré, com única exceção do uso posterior de cromaqui (chroma key) para representar o momento quando um destes personagens será “libertado” deste acondicionamento de suas próprias raízes, mas que descobrirá que, assim como o filme, seu lugar no mundo é o lugar de fala de onde surgiu – O presente do Ceará para o mundo, num passeio turístico de projeções metafísicas que permitem a personagem e nós da plateia a viajar e interagir com as projeções na tela dentro da tela (e não é para isso que o cinema existe?!).

O maior legado paradisíaco de “Inferninho”, bem como da Alumbramento, foi reforçar o enorme talento do Ceará contemporâneo para toda uma nova geração, já distante das contribuições do famoso cearense Didi Mocó em ter desbravado o discurso imagético de um Brasil dominado pelas imagens da região Sudeste, principalmente Rio-São Paulo, mas que agora alcançam real representatividade livre de estereótipos ou da necessidade de fazer rir para ser compreendido. Um gostinho agridoce de quem é o berço da democracia do Brasil. Um Ceará vivaz e revigorante que anda salvando o país de inúmeras maneiras, não apenas no cinema – mas que, aqui, mais do que nunca, é âncora e cachoeira para desaguar um merecido retorno do reconhecimento de uma dos lugares em que Deus descansou e fez amizades para o resto da existência após fazer o paraíso na Terra. Um regresso com a experiência de quem se foi, porém mais do que nunca valoriza completar o ciclo e devolver à terra mãe o que lhe deu. Deus. Deus e o mar. Deusa amar. Deusimar.*

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*Confira debate sobre o filme dentro do V Cine Jardim – Festival de Cinema em Belo Jardim – PE, onde o filme abocanhou quase todos os prêmios, num debate mediado por este que vos escreve, o almanaquista Filippo Pitanga:

http://almanaquevirtual.com.br/v-cine-jardim-2019-debate-dos-filmes-da-quarta-noite-competitiva/

E Confira também debate com o diretor Guto Parente, e parte do elenco e equipe, incluindo Rafael Martins durante a 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes:

http://almanaquevirtual.com.br/22-mostra-tiradentes-debate-de-inferninho/