‘Infiltrado na Klan’: ensaio sobre exclusão se consolida como fenômeno

Laureado com o Grand Prix de Cannes, cotado ao Oscar, o novo longa-metragem de Spike Lee já soma US$ 85 milhões nas bilheterias e trafega por festivais como a Mostra de SP abrindo debates e encantando o público

por

23 de outubro de 2018

John David Washington vive Ron Stalworth, policial negro que se infiltra na KKK usando telefonemas

John David Washington encarna Ron Stalworth, policial negro que se infiltra na KKK usando telefonemas

Rodrigo Fonseca
Em cartaz nos EUA desde agosto, e já lançado em vários países da Europa, “Infiltrado na Klan” já arrecadou US$ 85 milhões e se candidata como um potencial concorrente ao Oscar de 2019, começando pelo prêmio de melhor direção ao mito Shelton Jackson “Spike” Lee. Na Mostra de São Paulo, o longa-metragem foi um sucesso. E sua vinda já está garantida para o Festival do Rio 2018 (1 a 11 de novembro) e para o BIFF – Brasília International Film Festival (9 a 18 de novembro), onde o cineasta de 61 anos ganhará uma retrospectiva. Seu “BlackKklansman” é um manifesto contra o desgoverno racial em sua pátria. Seu sucesso é endossado pela conquista do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes (reforçado por uma menção honrosa do Júri Ecumênico cannoise) e pelo voto de Melhor Filme pelo Júri Popular de Locarno. Fala-se (e muito) de troféus como o Globo de Ouro para estar produção de US$ 15 milhões. De acordo com o site Awards Daily, especialista nas premiações do cinema, o longa-metragem de Spike deve concorrer em nove categorias a começar pela de Melhor Filme, seguindo as de Direção, Roteiro Adaptado, Ator, Ator Coadjuvante, Fotografia, Figurinos, Direção de Arte e Maquiagem.

Sem papas na língua, em especial ao se referir ao presidente Donald Trump, a quem chamava de “doido” sem qualquer ressalva, Spike Lee repetiu na coletiva de imprensa de “BlackKklansman”, o mesmo tom de indignação com tempero da ironia que imprimiu nos 128 minutos do longa. Sua trama, baseada em fatos reais ocorridos em 1979, nos EUA, o policial Ron Stallworth, do Colorado, infiltrou-se numa facção da Ku-Kux-Klan. “Desculpa eu usar tanto palavrão aqui com vocês, mas o que está acontecendo de sujo aí fora produz palavras sujas aqui dentro. Eu preciso da ajuda de vocês para fazer as pessoas entenderem que este não é um filme só sobre a América, e sim sobre o mundo”, disse o diretor, que voltou ao páreo da Palma de Ouro, depois de um hiato de 27 anos sem concorrer.

Em 1989, ele disputou o prêmio com o filme que o consagrou, Faça a Coisa Certa (1989), mas o presidente do júri de então, o diretor alemão Wim Wenders, preferiu não referendar sua estética nervosa. O eleito de Wenders era o também americano “sexo, mentiras e videotape”, de Steven Soderbergh. À época, reclamaram que o final do filme de Spiker não oferecia soluções para a questão racial, pois apenas jogava sujeira no ventilador. Claro que ele não poderia oferecer soluções, afinal, as tais questões ainda estão por aí até hoje. “Por isso eu dirigi este novo filme, pois a bagunça permanece”, explicou Lee, que confiou o papel de Ron Stallworth a(o surpreedente) John David Washington, da série “Ballers”, da HBO.
“Ron ainda está vivo e bem, abrindo espaço para trocarmos ideias. Foi bom saber o quanto esse cara teve grandes mulheres ao seu lado, apoiando seus passos”, disse Washington, ao lado da jovem atriz Laura Harrier (a Liz de Homem-Aranha: De Volta Ao Lar), que vive a militante Patricia, namorada de Ron.

“Estudei muito sobre a causa dos Panteras Negras, que Lee também aborda no filme, assim como li muito sobre a luta da militante Angela Davis”, disse Laura.

7 Spike Lee 7 Blackkklansman

Quem deu a dica do livro para Lee foi Jordan Peele, diretor do cult “Corra!” (2017). Peele, que assina a produção de BlackKklansman, leu o livro de memórias de Stallworth e ligou para Spike na sequência. “Quando ele me deu um resumo da história, eu disse: ‘Isso foi verdade? Por que, se for, quero filmar agora’. E filmei, usando imagens reais dos protestos racistas que ocorreram em Charlottesville, em agosto passado, como uma espécie de epílogo”, disse Lee, que planeja lançae o longa no dia do aniversário de um ano da tragédia racial dos EUA.

Inconformado com a chegada da velhice, ao se tornar um sexagenário, o diretor afirma que rodou o filme em película, e não com cartões digitais de memória, a fim de reproduzir o visual do combativo cinema americano dos anos 1970. Em seu elenco, ele incluiu Adam Driver, o Kylo Ren da franquia “Star Wars”. “Spike me pôs ao lado de um elenco incrível”, elogiava o ator, que enxerga na estética do cineasta uma mirada crítica sobre a vida americana.

“Não sou uma pessoa derrotista, mas eu ando de olhos abertos”, disse Spike. “Eu vejo as coisas. Eu ouço as coisas”.