Injeção de testosterona moral nas veias de uma Berlinale assolada por debates políticos

"Chi-Raq" libera o moleque que andava trancado na alma de Spike Lee, perdido em meio ao "mimimi" rancoroso com que ele passou a tratar colegas de profissão

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16 de fevereiro de 2016

“Chi-Raq” libera o moleque que andava trancado na alma de Spike Lee, perdido em meio ao “mimimi” rancoroso com que ele passou a tratar colegas de profissão (Clint Eastwood, Tarantino) quando deveria estar empregando sua militância em nome da arte de filmar. Com “Faça a Coisa Certa” (1989) nasceu um artista que expressava indignação em forma de filmes, mais e melhores filmes. E nos anos 1990, sua fúria em relação ao histórico de humilhação dos negros nos EUA fez dele uma voz em prol da Ética e um cineasta sem par. Mas um fracasso comercial na década seguinte – “Milagre em Sta. Anna”, de 2008 – desgovernou sua carreira e sua lucidez. Inpirações estéticas na forma e no conteúdo (racial sobretudo) deram lugar a documentários canhestros, a um remake desnecessário do sul-coreano “OldBoy” e a um mar de lamentações intensificado agora com seu ataque ao Oscar, pela falta de atores negros na competição. Mas, com este novo longa, um musical com formato de snapchat, o Spike que fazia pensar está de volta.

Há imperfeições no roteiro baseado na peça grega “Lisístrata” – no qual uma mulher deflagrava uma greve de sexo para deter guerras – e mesmo na edição, visto que o ritmo cai lá pelo terço final. Mas, até lá, a vertigem impera, calçada numa ideologia substancial que traz o trágico da Grécia da Aristófanes para as ruas sujas com o sangue das gangues de Chicago. A beleza da Lisístrata de Lee, a atriz Teyonah Parris, galvaniza o tesão do filme, no qual o cineasta retoma a tese de que a tragédia do contemporaneidade é a exclusão. E, de quebra, tem Wesley Snipes, antológico, na pele de Cíclope.
No momento em que a nova dramaturgia, na TV e no cinema, detém sua atenção sobre o emasculamento, Lee vai na contramão e ressalta o desejo masculino, a virilidade como identidade. É uma transgressão sintonizada com os novos tempos. Oportuna e bem argumentada nesta alegoria no batuque do hip hop.
Desde já, com seu mar de mulheres, faz parte da filmografia oficial de Bonsucesso, terra natal deste almanaquista, que treme de frio em Berlim.