‘Introdução à Música do Sangue’

Dirigido por Luiz Carlos Lacerda, longa entra em cartaz nesta quinta-feira, dia 29.

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29 de junho de 2017

Introdução a musica do sangue_poster

Desejo x repressão. Mundo arcaico x modernidade. Bases de “Introdução à Música do Sangue”, de Luiz Carlos Lacerda, que retrata um casal idoso e uma menina agregada que vivem numa casinha sem luz elétrica numa cidade do interior de Minas Gerais. O homem está acomodado à rotina da lavoura e a mulher sonha com uma máquina de costura elétrica para evoluir no trabalho e ter uma vida mais confortável. A jovem, saindo da adolescência, está no limite de explosão do desejo que ferve ao conhecer um peão muito atraente de uma fazenda vizinha.

Adaptado do argumento inacabado, do escritor Lucio Cardoso, um especialista do romance de introspecção psicológica, o longa imprime através da fala mansa da mulher, e, principalmente, dos silêncios que dizem muito do patriarca, e da postura sonhadora da garota, uma atmosfera de expectativa sobre onde esses personagens poderão colocar os seus desejos reprimidos: o homem pela garota agregada, a mulher pela modernidade da energia elétrica, e a menina no despertar de sua sexualidade.

Ney Latorraca faz um lavrador frustrado e reprimido e deixa a sensação de medo do que ele pode ser capaz de fazer. Seus olhares bastam para sabermos. Já Bete Mendes constrói uma costureira que secou seu desejo sexual, mas que mantem acesa a chama da aparência de mulher casada que tem uma casa e briga para convencer o marido de que eles precisam da energia elétrica. Sexo e afeto não são importantes. O que interessa é a máquina de costura elétrica para que ela possa produzir mais. Algumas falas de Bete soam esquemáticas demais para uma mulher com aquela história, mas isso não é prejuízo ao trabalho delicado da atriz. Greta Antoine e Armando Babaioff completam o elenco com competência interpretando a jovem cheia de desejo e o peão que seduz e é seduzido.

“Introdução à Música do Sangue” foi rodado em Cataguases e os sons do mato e do rio, apoiados na música, de David Tygel, constroem a atmosfera que envolve esse jogo entre os personagens. Diretor de filmes vibrantes como “Leila Diniz” e “For All – O Trampolim da Vitória”, Luiz Carlos Lacerda imprime na condução e no roteiro um ritmo com algumas repetições do segundo ato para o final, mas sabe concluir com eficiência o arco dos personagens.

 

Avaliação Ana Rodrigues

Nota 3