Invasores

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24 de janeiro de 2016

A modesta produção de Marcelo Toledo, refinada com música clássica a sair pelas teclas do piano, parte de uma reflexão muito interessante acerca do abismo social sentido na pele por jovens brasileiros. Como protagonista de “Invasores”, temos Claudia (Emanuela Fontes), moradora da periferia de São Paulo que sonha com a oportunidade de ingresso na USP (Universidade de São Paulo) para estudar música. O problema de Claudia, o maior deles, é a falta de um piano para praticar até o dia da prova de aptidão. Os outros são praticamente os mesmos de uma jovem de sua idade, financeiramente desprivilegiada ― a falta de apoio da família, que acredita que ela deve procurar um emprego antes de se dedicar aos estudos, além da distração que nubla seu objetivo, como o consenso externo de que a moça é ambiciosa demais.

O namorado de Claudia, Nilson (Maxwell Nascimento), resolve ajudá-la a ter acesso a um piano, mas ele só consegue fazer isso pela via da ilegalidade. Nilson está acostumado a desafiar o estado ― ele e os amigos Sharise (Rita Batata) e Jamais (Fábio Neppo) são pichadores que experimentam a adrenalina no topo de prédios de São Paulo. Por isso, o jovem não titubeia ao decidir invadir locais onde ele sabe que vai encontrar o instrumento que Claudia tanto precisa. A garota, sem opção a não ser correr atrás do sonho, embarca nas aventuras invasoras com as partituras a tiracolo. É a partir desse comportamento do jovem casal que o filme suscita outra primordial discussão: o ato de arrombar portas ou janelas para se conseguir o que precisa diz muito a respeito da hermeticamente fechada separação das classes. É como se o desfavorecido só conseguisse entrar no território que naturalmente o repele, no caso a USP, através da invasão, da violação de barreiras de cunho social que segregam o pobre do rico. Com discurso potente em um cinema honesto, sem firulas, “Invasores” perde um pouco da força em consequência da apatia da atriz protagonista. Falta fogo na atuação (em um desempenho frio) para melhor demonstrar a veneração de Claudia pelas obras-primas de Bach, Beethoven ou Mozart. Por falar em elenco, os que melhor representam a crueza do longa são Maxwell Nascimento e Rita Batata, atriz de destaque do relevante “De Menor” (2013), de Caru Alves de Souza.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3