Invisível

Novo filme de Pablo Giorgelli trata da solidão e desespero de uma adolescente com gravidez indesejada

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13 de novembro de 2017

O aborto ainda é um tabu em vários países do mundo, principalmente nos latino-americanos, que têm a base religiosa católica. A Argentina faz parte deste quadro: a prática continua ilegal e prejudicando milhares de mulheres dia após dia, em especial as de menor poder aquisitivo, como sempre. “Invisível”, novo filme dirigido por Pablo Giorgelli (“Las Acacias”) e escrito a quatro mãos com Maria Laura Gargarella, mostra as consequências que a falta de uma opção legal causa na vida de Ely (Mora Arenilla), uma adolescente de 17 anos que vive com a mãe depressiva, Susana (Mara Bastelli), em um modesto apartamento em La Boca, um bairro de conjuntos habitacionais de Bueno Aires. Ela cursa o último ano do ensino médio e trabalha numa pet shop para complementar a renda familiar. Quando descobre que está grávida de Raúl (Diego Cremonesi), seu chefe mais velho e casado, seu mundo desaba ao perceber que precisa tomar uma difícil decisão: ter ou não o bebê.

No momento em que Ely descobre a gravidez, o espectador começa a acompanhar a odisseia pautada no desamparo, solidão e angústia pela qual a menina passa: a médica lhe diz que ela deveria conversar com os pais sobre isso e que abortar é ilegal, sem lhe dar maiores conselhos ou consolá-la. O Estado não a apoia, a sociedade não a apoia e a julga sem compaixão, a mãe não pode apoiá-la, o pai nem aparece, o amante finge apoiá-la por interesse próprio; apenas a amiga do colégio ajuda Ely a procurar métodos para abortar, mas some depois da primeira metade da trama. Durante todo o filme, a protagonista tenta manter sua rotina normal como se nada estivesse acontecendo enquanto lida com enorme um conflito interno e com a falta de estabilidade no lar, e Giorgelli consegue passar muito bem isso por meio das sequências do cotidiano de Ely, ao qual ela gradualmente dá menos atenção e vai se tornando cada vez mais invisível, como o título do longa-metragem.

Não é fácil ver uma jovem que mal começou a vida como Ely tão desamparada, vulnerável e envolta em dor e tristeza, ser obrigada a tomar uma decisão que vai mudar a sua vida para sempre e a amadurecer precocemente. É mais difícil ainda pensar que existem muitas como ela por aí, espalhadas pelo mundo. O maior mérito de “Invisible” (no original) é acompanhar a personagem Ely sem julgá-la, assim como o espectador deve fazer. Com ritmo lento, a história criada por Giorgelli e Gargarella é um exercício de empatia e um convite à reflexão sobre a criminalização do aborto em pleno século XXI. Não é um filme para o grande público, mas deveria ser visto por todos, pois debater sobre o aborto é mais do que necessário.

 

Festival do Rio 2017 – Première Latina

Invisível (Invisible)

Argentina / Brasil / Uruguai / Alemanha / França – 2017. 87 minutos.

Direção: Pablo Giorgelli

Elenco: Mora Arenilla, Mara Bastelli, Diego Cremonesi, Agustina Fernandez e Paula Fernandez Mbarak.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4