Irmã

Luzes-personagens

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06 de novembro de 2020

“Irmã” de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes é um filme muito interessante, com uma bela proposta de cinema. Estrelando Maria Galant (a mesma atriz do premiado “Mulher do Pai” de Cristiane Oliveira) e uma revelação mirim encantadora na pele de Anaís Grala Wegner, esta obra pode aparentar simplesmente ser mais um filme agridoce sobre duas irmãs, porém, já sai do lugar comum agregando inusitada premissa sci-fi: Está vindo um meteoro do céu, que não irá atingir a Terra e vai passar paralelamente à nossa órbita, e que estaria alterando magneticamente o comportamento de todas as mulheres do planeta…

Este inusitado argumento original é também uma brincadeira de gênero que vai fazer com que essas duas irmãs passem por uma catarse quando forem visitar o pai que não vêem há muito tempo, porque ele constituiu uma nova família. O filme possui muitas experimentações visuais, muitas mesmo. O Arcabouço pode ser extremamente simples, a espinha dorsal, mas vai passar por experimentações de cores, de iluminação, muito inspiradas na representação do próprio meteoro… Podemos fazer uma conexão com o filme recifense de curta-metragem que estreou no início do ano na Mostra Tiradentes, “Os Últimos Românticos do Mundo” de Henrique Arruda, linda metáfora sobre um casal de dois rapazes que precisam enfrentar com amor o fim do mundo igualmente prenunciado por um meteoro.

E podemos fazer esta correlação com as duas irmãs deste exemplar em foco, onde, mesmo com o fato de que aqui o meteoro irá passar ao largo, o dispositivo de ficção-científica trará a palheta referencial de cores a permear todo o resto do filme, mesmo em suas cenas de carga dramática mais clássica. O comportamento das duas protagonistas vai sendo alterado de acordo com que estas cores e luzes vão sendo projetadas nelas, do lilás-azulado ao rosa-alaranjado, como se o cosmo pudesse ser fabulado a partir de nosso coração (dois tons não necessariamente opostos, mas complementares entre os espectros do material e o imaterial, como o famoso episódio “San Junipero” de “Black Mirror”)…

Pode até parecer ingênuo, ter essas imagens e projeções sobrepostas nas personagens e nas paredes, como num planetário, de maneira extremamente teatral  e pantomímica… Porém, de acordo com que o filme evolui, virando mais diegético e naturalista, vai incorporando também o dispositivo do sci-fi de modo mais fluido à trama. Por exemplo, a irmã menor está tendo um pesadelo, e o copo de água ao lado da cama da irmã mais velha começa a ferver e as luzes  do quarto mudam. Estes são exemplos de como as ferramentas imagéticas vão mudando de acordo com o psicológico delas, numa proposta muito feliz, simples, que não tenta ser maior do que ela é.

Uma entrega muito fortuita estética, de atuações excelentes, inclusive das personagens adultas, que não ficam sobrando também não. Tudo isto a culminar na catarse entre o descaso alienado do pai e a ausência da mãe no hospital, muito bem trabalhada tanto no roteiro, quanto na montagem: entre cenas apenas inertes na cama e, noutras cenas, mais alucinógenas, onde o inconsciente imaginário da mãe passa a ter forma exteriorizada… Ao conflito final, muito bem filmado, onde toda a tensão do meteoro vai se passar apenas dentro de um veículo em movimento – e quando as luzes por fim tomam seu protagonismo, elevando as personagens femininas a outro patamar de poder sobre o próprio filme (já que as luzes, de certo modo, e de muitos modos, são uma representação delas mesmas também).

  • O presente texto foi ampliado a partir da transcrição de uma crítica em vídeo feita durante o Festival de Berlim, e revista e expandida a partir da 44ª Mostra de São Paulo. (confira o vídeo original aqui)