Capitão América: Guerra Civil

Num diálogo livre com a saga 'Guerra Civil' das HQs, o terceiro filme do Sentinela da Liberdade afirma a maturidade dos irmãos Russo como realizadores, ao mesmo tempo em que demarca a porção épica à la western da Marvel nos cinemas

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03 de maio de 2016

Irregular, mas ainda assim espetacular, o novo ‘Capitão América’ dá menos espaço a seu titular a se rende à teia do Aranha:

Chris Evans encara com a competência habitual o papel do Capitão América, numa produção que rendeu R$ 44 milhões no Brasil no fim de semana

Chris Evans encara com a competência habitual o papel do Capitão América, numa produção que rendeu R$ 44 milhões no Brasil no fim de semana à força de um embate de heróis

Westerns fantasiado de fábula, os filmes de super-herói da Marvel Comics resgataram um ethos outrora inerente ao bangue-bangue – e, no caso oriental, às histórias de samurai – desde a gênese do gênero, com O Grande Roubo do Trem (1903), de Edwin S. Porter: sua meta é criar a Épica de um novo desbravamento territorial. Se o western era a crônica da conquista do Oeste, com a cartografia de uma natureza ainda não tocada pelo ideal de uma civilização, produções como o irregular (mas acachapante) Capitão América: Guerra Civil buscam mapear (e se apropriar de um terreno) que foi colonizado pelo realismo (muitas vezes documental) há cerca de 15 anos. Desde o 11 de Setembro, tragédia de 2001 responsável por uma ferida narcísica na identidade imperial das nações dominantes, a fabulação no cinema entrou em xeque, sendo trocada por estéticas que, quanto mais próximas da factualidade, do registro etnográfico ou mesmo do Jornalismo, mais incensadas são. Basta lembrar que, em 2002, quando Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, apareceu, o senso geral no “boca de urna” ao fim das sessões populares era “é bom porque parece de verdade”. A saturação do choque do hiperrealismo e dos reality shows gerou a necessidade de uma metafísica escapista ao extremo no início da década passada, representada na franquia Harry Potter e na monumental trilogia O Senhor dos Anéis (2001-2003). Mas, com o impasse frente de sustentar a magia como seu principal veio de mitos, Hollywood buscou um plano B, com mitos mais palpáveis, residentes na interseção entre o Olimpo (ou Hogwarts) e as ruas sujas de exclusão social. Daí os vigilantes mascarados.

Essa conexão com o western não se dá apenas no campo formal da estrutura narrativa, que, no caso da Marvel, expressa-se com a roupagem de saga, estendendo-se entre filmes diferentes (e suas cenas pós-créditos) como uma rede. Há em Guerra Civil, da mesma forma que em Os Vingadores (2012) e no pavoroso A Era de Ultron (2015), uma centelha característica de um mestre do faroeste: Howard Hawks (1896-1977). Famoso por muitos gêneros, Hawks deu ao far-west um toque pessoal ao levar seu estilo humanista – calcado num uso de câmera à altura dos olhos de mulheres e dos homens – para produções como Rio Vermelho (1948) e Onde Começa o Inferno (1959), nas quais a amizade (e suas incongruências) são um assunto essencial. Tudo isso se faz notar como força motriz no terceiro longa do Capitão América, defendido de novo com competência por Chris Evans. É um filme menos quadrinístico e muito mais hawksiano, dando às palavras, nos diálogos, peso similar às tomadas de batalha, ainda que estas sejam seu chamariz.

Egressos da TV, sobretudo no campo da comédia, com séries como Arrested Development em seu currículo, os irmãos Joe e Anthony Russo assumem a direção de Capitão América: Guerra Civil carregados desse hawksionismo em diferentes frentes, sendo a mais visível (e mais tocante) a relação alquebrada entre Steve Rogers (Evans) e Tony Stark, o Homem de Ferro, uma vez alçado às alturas pelo gênio Robert Downey Jr. Aqui, nos moldes da HQ no qual se inspiraram, os Russo colocam Stark e Rogers em lados opostos do ringue, embora ambos beijem a mesma lona: o não pertencimento às convenções de nosso tempo. O misbehavior de ambos é explicado com didatismo. Com o Capitão, a questão é que ele é um ser fora do tempo, após ter passado décadas congelado. Já com o Homem de Ferro, tudo vem da perda dos pais, um trauma que vai ser explicado no roteiro num momento crucial de virada… para ambos os heróis. Nem sempre esse mesmo roteiro encontra caminhos à altura dos quadrinhos aos quais se reporta, mas não lhe faltam verossimilhança, consistência, clareza e adrenalina.

Robert Downey Jr. segue sendo um pilar para o coeficiente trágico da narrativa, de novo como Tony Stark, o Homem de Ferro

Robert Downey Jr. segue sendo um pilar para o coeficiente trágico da narrativa, de novo como Tony Stark, o Homem de Ferro

Há no script, contudo, uma fragilidade inegável: não se trata de um filme do Capitão América e sim dos Vingadores. Há uma forçada saída de se colocar o incidente incitante do enredo nas costas do melhor amigo (ou quase) do Sentinela da Liberdade: o ex-Bucky, atual Soldado Invernal (vivido por Sebastian Stan, numa inexpressividade digna de Ricardo Macchi, o eterno Cigano Igor da TV). Mas essa responsabilidade não dá ao Capitão o protagonismo esperado. É um filme de coletivo. Essa fraqueza poderia ter sido resolvido se os roteiristas tivessem trabalhado diferentemente o perfil do real vilão do longa: Zemo, encarnado pelo brilhante astro alemão Daniel Brühl, de Adeus, Lênin (2003). Nos gibis, onde ele tem o título de Barão, o personagem é a síntese da Maldade encarnado em gente. E está diretamente ligado ao passado de Rogers em relação à sua luta contra a organização terrorista Hidra e contra os nazistas. Mas aqui, ele acaba se tornando um “vilão com causa”, humanizando-se sem que isso gere um efeito dramático. E nessa descaracterização em relação aos gibis, há uma perda que, na comparação com o filme anterior da série do Capitão, de 2014, sai em desvantagem plena. O roteiro aqui é eficiente, mas não transcendente.

Visualmente, os Russo entregam seqüências iniciais deficitárias, seja pela coreografia canhestra das lutas (contra o Ossos Cruzados), seja pelos efeitos especiais. Mas com 20 minutos de canhestrice, os Russo encontram o prumo e entregam uma sequência de conflito violento das mais esplendorosas já filmadas pelo cinema, dando conta da esperada briga entre a equipe do Capitão e a do Homem de Ferro. Eles se dividem porque o governo americano e os demais países da ONU, representados nas ordens do Secretário de Estado (e ex-General) Thaddeus Ross (William Hurt, soberbo) exigem que os heróis se registrem com seus governos, sendo legislados e controlados. Tudo se deflagra por conta de uma ação torta atribuída ao Soldado Invernal, tendo Zemo como artífice. Nos gibis, o enredo era distinto e lá havia a presença impagável do Justiceiro, dando dor de cabeça para Rogers. Aqui, rola soco e pontapé, num trecho que não apenas mobiliza o filme todo pelo rigor na forma, mas também muda nosso foco de atenção pela entrada do sempre eficiente Paul Rudd, como Homem-Formiga, e pela apresentação do Homem-Aranha de Tom Holland – da tia May, em sua mais sensual encarnação, confiada à helênica Marisa Tomei.

Tom Holland embrulha o filme na teia do novíssimo Homem-Aranha

Tom Holland embrulha o filme na teia do novíssimo Homem-Aranha

Destaque no filme-catástrofe O Impossível (2012), Holland embrulha Guerra Civil numa teia juvenil de humor que rende uma surpresa a cada virada. Há outros bons coadjuvantes em cena como o Pantera Negra de Chadwick Boseman, mas nada se equipara ao que o novíssimo Peter Parker faz. Talvez só as tiradas sacanas de Rudd. Mas o trecho do riso dura pouco e, logo, a resolução de uma intriga de predestinação trágica se faz soberana. Esse trâmite se dá com elegância na montagem, rendendo um longa de tônus espetaculoso até o fim.

O que fica deste Guerra Civil, contudo, são mais sequências esparsas e menos uma totalidade de sensações ou de reflexões. É injusta a comparação com Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, de Zack Snyder, visto que este segue a linha mais dark da DC e se filia às normativas autorais de seu realizador, de fazer do niilismo um modo de ver e entender o real. Mas se há alguma analogia útil é que, na peleja do Homem-Morcego contra o último filho de Krypton ficava algo mais em termos de dramaturgia, numa tentativa de compreensão da histeria e da loucura, encarnada no Lex Luthor antológico de Jessé Eisenberg. Guerra Civil não encontra a mesma transcendência. Mas, ainda assim, deixa a percepção de a certeza de que esta moda heróis saindo no tapa é um reflexo da nossa carência de valores éticos. Num mundo sem moral como o nosso, quem precisa de vilões? Normal Zemo ser bacana. O erro não é dos Russo. O erro está na gente.

 

 

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4