Isso não é um enterro, é uma ressurreição

Obra-prima

por

03 de novembro de 2020

Você assiste a filmes só pelo título? A 44ª Mostra de SP continua no ar.

“Meu coração só vai bater se você pedir” e “Isso não é um enterro, é uma ressurreição”: Alguns dos filmes da 44° Mostra Internacional de Cinema, que continua em sua segunda semana com 198 obras de 71 países até o dia 04 de novembro.

Que bom te ver viva…
Nós que aqui estamos,
Por vós esperamos.
Viajo porque preciso,
Volto porque te amo,
A pessoa é para o que nasce…
Histórias que só existem
Quando lembradas,
Na cidade onde envelheço.

Este poderia ser um belíssimo poema de autoria desconhecida… Mas, na verdade, é uma compilação poética de títulos de filmes brasileiros. Nossa língua é extremamente lírica e ideal para expressar versos e refrões naturais da gramática do dia a dia. Não à toa, temos alguns dos maiores poetas do planeta. Até nossa música é reconhecida internacionalmente por seus compositores, seja em letras ou acordes, como a dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, com o exemplo de “Garota de Ipanema”, uma das recordistas em trilhas sonoras no mundo: presente desde em Woody Allen (“Desconstruindo Harry”, de 1998) a Scorsese (“A Cor de Dinheiro”, de 1986); Além de Caetano Veloso, cuja canção “Cucurrucucú Paloma” está em mestres como Almodóvar (“Fale Com Ela”, 2002), Wong Kar-Wai (“Felizes Juntos”, de 1997) e Barry Jenkins (“Moonlight”, de 2016).

E você, já assistiu a algum filme apenas pelo título? Há famosas traduções de filmes estrangeiros para nossa língua que muitas vezes ficaram até mais belas do que o original. Noutras vezes, ganham mais camadas de significado perante nossa tabula referencial… como por nossas riquezas naturais, a complexidade sociocultural ou mesmo nossas controvérsias políticas. Pois há vários destes exemplares poéticos, que já lhe atraem pelo próprio nome, presentes na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que segue online para aluguel nas plataformas digitais até o dia 04 de novembro (lembrando que ao alugar um longa-metragem, você terá até 3 dias para assistir, estendendo as possibilidades até o dia 07 de novembro).

Um dos maiores exemplos disso e bastante procurado pelos cinéfilos é “Isso não é um enterro, é uma ressurreição” de Lemohang Jeremiah Mosese (2019) – primeira produção na história da Mostra de SP representante de Lesoto, país da África Austral, encravado na África do Sul. Reino ancestral que foi uma das inspirações para a criação da fictícia Wakanda nas histórias do personagem Pantera Negra. Nesta obra, somos guiados por um narrador diegético, representando um griot (aquele que transmite a história e canções de seu povo), a conhecer a inabalável personagem de Mantoa (soberba na pele de Mary Twala). Ela é uma viúva em luto que acaba de perder o último filho ainda vivo, não possuindo mais nada além das covas de sua família, numa cidade que em breve deverá ser desalojada para virar uma represa inundada.

Se já não bastasse o pungente título do filme, o texto narrado e declamado é extremamente poético. Vide diálogos como o que nomeia o longa: “Eu vi com meus próprios olhos, os mortos enterrando seus próprios mortos. Mas isto não é uma marcha fúnebre, nem um enterro, isto é uma ressurreição. Uma Gênese”. E mais:
“A noite longa chegou. Descanse nos braços de Morfeu, e que você morra durante o sono. Enfeite seu corpo com este vestido. Esta oferenda de amor que seu marido lhe deu. Vá para a cama e invoque sua morte. Outorgue-a a você e reze pelo descanso eterno. O vento uiva com o pernicioso vento da noite. Mas a morte não vem. Lamente. Lamente, velha viúva. Chore. Chore. Pois a morte lhe esqueceu” – recita oniricamente o griot com a voz em off sobre as imagens em tom chiaroscuro da protagonista deitada sob um dossel da cama de cortinas azuis caindo sobre o forte vermelho dos lençóis.

Numa extrema noção de quadro e de cinema na tela grande, o diretor Lemohang Mosese consegue emoldurar a história com o contraste entre as nuvens e montanhas, ou mesmo dos campos floridos, como se materializasse a tensão dos versos encapsulada no tempo. A autoconsciência espacial nas filmagens é tão grande que, mesmo se dedicando na projeção aos planos abertos ou panorâmicos, facilitadores do deslumbre pela beleza natural das grandes altitudes de Lesoto, ele encerra o nosso olhar a partir da oposição de movimentos e forças em pequenos detalhes. Desde a procissão de corpos descendo a montanha e guiadas pela protagonista que afunila o foco do nosso olhar na base da imagem, à junção e combinação de movimentos que passam pela tela como se nos forçassem a piscar e e lembrar da mise-em-scène dramatúrgica para além da pictórica.

A história pode lembrar um pouco filmes bastante conhecidos, como “Lemon Tree” de Eran Riklis (2008), onde a ancestralidade da família palestina da protagonista era representada pelo limoeiro do título, pivô do conflito que o antagonista israelense desejava derrubar… Bem como alude ao nosso brasileiro “Narradores de Javé” de Eliane Caffé (2003), onde a cidade também seria inundada para a construção de uma hidrelétrica até que decidem escrever a história de seu povo para não deixar com que fossem apagados do mapa. Aliás, deste filme há, inclusive, um enquadramento idêntico, com todos ao redor da mesa para narrar o seu passado para o único ali que domina a escrita. Ou mesmo, imageticamente, podemos pensar na plasticidade quase estática com grandes monólogos no extracampo, quase um griot, que servem de tableau vivant para Pedro Costa criar obras-primas como “Cavalo Dinheiro” (2014).

Porém, “Isso não é um enterro, é uma ressurreição” é tudo isso e ao mesmo tempo algo completamente novo, pela junção de fatores. E aquela resistência da anciã da vila se torna resistência para todo os seus conterrâneos não se deixarem apagar nem esquecer. Uma performance digna de prêmios. E um filme inesquecível, ainda mais para a pluralidade diversa das seleções anuais da Mostra de SP, como foi quando a jóia rara “A Ilha do Milharal” de George Ovashvili se revelou na contenda para o Oscar de filme internacional entre os pré candidatos como representante inesperado da Geórgia, país também diminuto, entre a Rússia e a Armênia. Pois será que teremos desta vez um representante de Lesoto ano que vem nas premiações? Pelo grande número de prêmios que este filme já acumula, é bem possível.