It – A Coisa

A estética do pesadelo nunca foi tão deslumbrante

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09 de setembro de 2017

Que agradável surpresa. A estética do pesadelo nunca foi tão deslumbrante.

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Me lembro de ter revisto o “Poltergeist” original, de Tobe Hooper e produção de Steven Spielberg, há uns 2 anos na tela grande durante maratona de terror do Estação NET e havia esquecido o quanto o filme bebia de uma extrema beleza estética Spielberguiana. O filme possuía realmente uma plasticidade impecável em plena década de oitenta, ainda mais para um gênero que é considerado infundada e injustamente primo pobre do realismo fantástico, ou seja, o gênero terror.

E quem diria que “It – A Coisa” de 2017 dirigido por Andrés Muschietti, mesmo sendo uma readaptação da obra original de Stephen King (que já teve outra adaptação em 1990 no formato de telefilme que ficou muito popular no Brasil e no mundo), seria tão belo visualmente, e isto seria um acerto tão grande no quesito deslumbramento para aumentar a relevância do imaginário visitado pelos pesadelos. 

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Filme de terror não é feito só de susto ou cenas de impacto, e sim de ambientação e crônicas sociais através das metáforas críticas que o realismo fantástico consegue passar mais impunemente. Não que seja um filme perfeito, pois há arestas, mas são pelas arestas que nos apaixonamos quando mergulhamos na perfeita ambientação oitentista. É mais que terror ou susto, há um incrível maravilhamento. E para quem ama caçar referências vai encontrar um delicioso cardápio advindo de filmes especialmente da década de oitenta (explícita e implicitamente). Todos que tiveram prazer de crescer com “Os Goonies”, “Garotos Perdidos”, “A Hora do Pesadelo”, e até mesmo “Carrie – A Estranha” que é de uma década antes, terá um prazer enorme em catar piolho (movimento retrô que aliás a Netflix já havia começado a resgatar em várias de suas séries que aludem à década incrivelmente imagética dos anos 80, principalmente o sucesso “Stranger Things”).

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Não temos tantos problemas em admitir nossos próprios pesadelos que criamos como raça humana se estiverem distorcidos na tela a ponto de que quase não o reconheçamos, mas que ainda estejam ancorados pelo maravilhamento imagético apenas o suficiente para que reconheçamos ao menos um traço de nós em meio à distorção, numa entrega mais vulnerável através justamente do deslumbre.

E há muitas denúncias sociais simbolizadas nos personagens, como a pedofilia, o racismo, o antissemitismo, a gordofobia, a hipocondria (estimulada pela máfia farmacêutica) e etc… Cada criança ali é uma reunião de arquétipos que sintetizam algumas das maiores ameaças sociais (com destaque para a revelação Sophia Lillis, única garota do grupo que rouba todas as cenas do filme). E por isso não encontram esteio nem em seus pais no que deveria ser o conforto do lar, pois o distorcido palhaço assustador que conhece todos os maiores medos das crianças as seduz e ilude até dentro de casa…. Aquelas ilusões enganadoras podem soar como preferíveis num salto pelo desconhecido frente os pais horrorosos que o fracasso da geração anterior ali representa…21558574_10208104240523586_8202563883794850571_nQue filme lírico para falar sobre nossas belas feiuras. Vale ressaltar elogios à composição estética do palhaço Pennywise (Bill Skarsgård), com um sorriso de lábios tortos e cheios de onde sempre sai um perturbador fio de saliva, além dos olhos estrábicos que nunca se encontram ou da testa pintada que vive descascando e rachando. Quem aqui, diante do stress do dia a dia e dos medos da vida, não adoraria espancar o palhaço da piada que se perdeu feita com a nossa cara…?!?!

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Palmas com destaque para a cena que as crianças unidas precisam limpar o banheiro todo cheio de sangue que os adultos não conseguem ver. Alusão direta à perversão de Norman Bates do filme “Psicose” de Hitchcock limpando o banheiro/chuveiro após o assassinato de Janet Leigh, como aponta o filósofo Slavoj Zizek no documentário “O Guia Pervertido do Cinema”, revelando que o ato de limpar nossas perversões revela assustadoramente muito mais sobre nós do que a perversão em si…

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