Ixcanul

Santíssima Trindade da Mãe, da Filha e do Espírito Santo

por

25 de outubro de 2015

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Por Filippo Pitanga e Samantha Brasil

“Ixcanul” de Jayro Bustamante, indicado da Guatemala para a corrida do Oscar de filme estrangeiro em 2016, é um filme sensível sobre um tema super pesado que trata de modernidade versus tradição: linguagem, ritual, perda, escolhas, migração e principalmente da condição da mulher enquanto ser social e enquanto força motora e matriz da natureza. Tanto a personagem da mãe quanto a da filha de protagonistas são mulheres incríveis, que a seus modos e dentro de suas possibilidades tentam sobreviver nesse mundo machista e ditado por esse capitalismo selvagem. Mesmo que suas crenças e tradições façam com que a filha seja prometida para o dono terreno onde eles deveriam plantar milho, porém está infestado de cobras que eles precisam remover antes de plantar senão podem ser demitidos. Há muito respeito nestes costumes de mãe para filha, e, mesmo num mundo dominado por homens, as sutilezas e ironias até muito engraçadas do filme demonstram que quem manda por trás deles são as mulheres. E a filha tem orgulho disso, visto claramente na fortíssima personagem coadjuvante da mãe.

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Uma das primeiras grandes surpresas da Mostra, para muito além de apenas uma exibição de curiosidade turística para o espectador sobre uma cultura alheia, cada cena em que se supõe “somente” se introduzir mais um uso e costume da região, acaba ampliando a dramática cênica de forma imprevista e ousada, como os banhos delicadíssimas da mãe e da filha. Além de altas nuances na discussão sobre sexualidade e sensualidade em mulheres do campo, ambas, mãe e filha, filmadas em fotografia delicada e edificante, para expor tabus estereotipados que aos poucos são vencidos. Há sim uma inevitável melancolia de como a ignorância de personagens tão reais e tão pobres podem ser tão manipulados e injustiçados socialmente, mas esta melancolia nunca advém dos próprios protagonistas, pois eles são enrijecidos e emponderados pelas mazelas da vida. A obra traz crítica ao sistema de patriarcado rural, da opressão linguística na diferença de dialetos para segregar o povo, e até nos hospitais e delegacias corruptas para obtenção de vantagem. Além disso, os EUA são tratados como uma falácia utópica inalcançável, em personagens emigrantes para lá ou em produtos estrangeiros que não funcionam. E o pacote se completa com uma fotografia arrebatadora com amplas tomadas rurais e até vulcânicas. Imperdível.

 

39ª Mostra de SP – Mostra Competitiva Novos Diretores

Ixcanul (idem)

De Guatemala. 2015, 91 min

De Jayro Bustamante

Com: María Telon, María Mercedes Coroy, Manuel Antún


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