Janis Joplin: little girl blue

Documentário traça delicado perfil da cantora

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07 de julho de 2016

O mundo do rock é assombrado por uma instituição macabra e mítica conhecida como “Clube dos 27 anos”, composta por músicos mortos com essa idade. A integrante mais recente desse grupo é Amy Winehouse, que ingressou nele em 2011. O membro fundador, por uma questão de dias, é Jimi Hendrix, que partiu para o andar de cima (ou de baixo, vá saber) em setembro de 1970. Logo depois, em outubro daquele ano, Janis Joplin se juntou ao lendário guitarrista para aguardar a chegada de Jim Morrison, vocalista dos Doors, em 1971. Kurt Cobain, do Nirvana, morto em 1994, completa a turma que permanece, até o momento, sem novos sócios.

Janis Joplin: little girl blue

Janis Joplin: little girl blue

Sendo seus integrantes adeptos do consumo exagerado de drogas e de álcool, o fator temporal seria apenas um dado curioso dessa lista se eles não tivessem outra característica em comum: o talento. Não aquele talento que, embora não seja comum, tampouco é raro; mas um talento avassalador, daqueles que Deus (ou o Diabo, vá saber) reserva para poucos. Outro fato que os une é o fascínio que exercem sobre a sétima arte, que já lhes rendeu justas homenagens através de documentários, como “Cobain: montage of keck” e “Amy”, ambos de 2015, e da ficção, como “The Doors” (1991) e “Jimi: tudo a meu favor” (2013).

Janis Joplin já havia sido objeto de um documentário na década de 1970, dirigido por Howard Alk, mas “Janis Joplin: little girl blue”, vai mais fundo na personalidade da cantora. Não é raro que todos esses astros, especialmente Janis e Amy, sejam vistos como irresponsáveis e inconsequentes. Gente que só morreu porque não tinha nada na cabeça e, por não ter nada na cabeça, tinha mais é que morrer mesmo. Na visão reducionista que o homem tem de si mesmo, agrupar pessoas entre boas e ruins torna-se uma tarefa de relativa simplicidade. E, se a pessoa em questão, tiver um estilo de vida que nos afronte, colocá-la no segundo grupo é ainda mais fácil. Se ela for uma junkie, isso é praticamente obrigatório.

Janis Joplin: little girl blue

Janis Joplin: little girl blue

Ao não fazer isso, esse talvez seja o grande mérito do filme de Amy Berg. Mais do que apresentar um apanhado geral da carreira meteórica da cantora, o documentário traça um delicado perfil pessoal de Janis, revelando suas incertezas, seus desejos e a personalidade doce que contrastava com o furacão que ela era no palco. A urgência que ela sentia de ganhar o mundo fica clara pelas várias tomadas feitas na estrada, em ferrovias e em aviões, opção encontrada pela diretora para retratar a necessidade que Janis sentia de deixar Port Arthur, no Texas, onde cresceu sofrendo por ser diferente, por não se adequar aos padrões da comunidade. O bullying sofrido na escola, a desaprovação paterna e o machismo da época contribuem decisivamente para um quadro de angústia e inquietude que vai se transformar em música quando aquela menina pouco atraente, com espinhas e acima do peso, descobrir o blues e Bob Dylan, suas maiores influências.

A partir disso, o que se vê é a transformação da adolescente tímida e sonhadora em um colosso igualmente sonhador, mas determinado a brilhar, como deixam claro as várias cartas para a família que são lidas ao longo do filme, em tom revelador e cativante. A partir dos depoimentos de familiares, amigos e músicos que trabalharam com ela, ilustrados por um deslumbrante arquivo de imagens, o público é apresentado a uma artista até então desconhecida, uma mulher inteligente, articulada, divertida e poderosa, uma mulher que contraria o senso comum de que ela seria apenas uma doida varrida. Um ícone feminista tão à frente de seu tempo que era odiado pelas próprias feministas.

Janis Joplin: little girl blue

Janis Joplin: little girl blue

O tom da narrativa pode conduzir à conclusão de que “Janis Joplin: little girl blue” seja um filme “chapa branca”. Em outras produções do gênero, isso certamente seria um problema para a obra. No caso de Janis Joplin, sujeita a todo tipo de julgamento há mais de quatro décadas, isso não só é uma qualidade, mas um grande diferencial.

Festival do Rio 2015 – Midnight Docs

Janis Joplin: little girl blue (Janis Joplin: little girl blue)

Estados Unidos, 2015, 116 minutos.

Direção: Amy Berg

Com: Chan Marshall, Janis Joplin


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