Je suis Charlie

Documentário presta homenagem às vítimas da chacina no jornal Charlie Hebdo

por

09 de outubro de 2015

Em janeiro de 2015 o mundo ficou em estado de choque com a notícia de que dois homens armados haviam invadido a redação do jornal francês Charlie Hebdo e assassinado 12 pessoas e ferido outras 11, incluindo parte da equipe do periódico. O motivo: religião. Uma charge retratando o profeta Maomé, que, de acordo com o islamismo, não pode ser representado através de imagens, provocou a ira de fundamentalistas. Nos dias que se seguiram, outros atentados foram realizados, resultando em mais mortos e feridos.

A população francesa foi às ruas entoando o grito “je suis Charlie” (eu sou Charlie), expressão que se tornou símbolo do movimento de apoio aos cartunistas e de repúdio aos grotescos acontecimentos. Não tardou para que surgisse outro grupo polarizando o debate, formado por pessoas que faziam questão de deixar claro que não, elas não eram Charlie. No centro da discórdia, o tema primordial era (e continua sendo) a liberdade de expressão e seus possíveis limites.

Je suis Charlie

Je suis Charlie

Infelizmente, o documentário dos diretores Daniel e Emmanuel Leconte não avança nessa análise. A tensão entre o jornal e as entidades islâmicas já era antiga. Desde meados dos anos 2000 as entidades representativas da religião vêm ressaltando seu inconformismo com a linha editorial da publicação. Em 2006, uma ação judicial buscou reprimir o jornal por conta de uma de suas charges e, em 2011, a redação do Charlie Hebdo foi alvo de um incêndio criminoso após mais uma provocação à fé islã. É importante frisar que o jornal não resume sua atividade à sátira aos símbolos islâmicos. Seguindo uma orientação fortemente esquerdista e antirreligiosa, o Charlie Hebdo, que nega veementemente qualquer orientação islamofóbica ou antissemita, ironiza a extrema-direita, o judaísmo e, também, o catolicismo. Contudo, sendo a França o país que abriga a maior população muçulmana da Europa ocidental, a polêmica em torno da abordagem que sua equipe faz de Maomé acaba gerando mais barulho.

Je suis Charlie

Je suis Charlie

“L’humour à mort” (no original) tinha elementos suficientes à disposição para aprofundar essas questões, mas não o fez. É evidente que a ponderação entre liberdade de expressão e respeito à diversidade é problemática, especialmente em um país que adota como lema a máxima “liberdade, igualdade, fraternidade”. É ainda mais evidente que não há ponderação que justifique o massacre ocorrido na redação do Charlie Hebdo. Contudo, nota-se no filme dos Leconte uma tentativa de passar ao largo dessa discussão. Ao se debruçarem sobre fatos tão recentes, talvez os cineastas, ainda sob o clamor do gravíssimo evento, tenham preferido dar à sua obra um merecido tom de homenagem às vítimas de gesto tão repugnante. Mas, ao seguirem esse caminho, desperdiçaram o potencial inegável que seu filme tinha para o pontapé inicial de um debate que a Europa, e especialmente a França, vem adiando já há algum tempo: a intolerância recíproca.

Je suis Charlie

Je suis Charlie

Em última análise, “Je suis Charlie” funciona como um valoroso documento histórico dos fatos ocorridos naquela ocasião, além de prestar uma bela homenagem aos cartunistas e jornalistas chacinados pelos irmãos Kouachi, mas pouco contribui para o avanço nas questões que suscita.

Festival do Rio 2015 – Panorama do Cinema Mundial

Je suis Charlie (L’humour à mort)

França, 2015, 90 minutos.

Direção: Daniel Leconte, Emmanuel Leconte

Com: Elisabeth Badinter, Gérard Biard


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52