John Wick – Um Novo Dia Para Matar

Espetacularização do guilty pleasure, mas com arte e conteúdo de verdade.

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17 de fevereiro de 2017

É engraçado que, mesmo com milhões investidos e sendo a atual indústria de entretenimento mais lucrativa dos EUA, os videogames ainda não tenham conseguido emplacar de fato nenhuma adaptação de seus jogos para os cinemas. Há esporádicos filmes que se pagam, como a franquia “Resident Evil”, mas não com reconhecimento como filme de fato, apenas como produto descartável, diferente das adaptações de quadrinhos que ganharam o mercado e salvaram a Sétima Arte da bancarrota. Quem diria que uma nova franquia que nasceu ironicamente com o título traduzido para o português “De Volta Ao Jogo”, com um personagem criado por Derek Kolstad e encarnado pelo eterno Neo de “Matrix”, Keanu Reeves, conseguisse, enfim, transformar a própria telona de projeção num jogo vivo, com participação ativa da adrenalina da plateia, movendo o controle do game de acordo que pula na ponta da cadeira.

hqdefaultRetomando o título no original, que é o nome do protagonista, e apenas acrescentando um subtítulo, a sequência “John Wick – Um Novo Dia Para Matar” consegue ser ainda mais ultraestilizado e fanfarrônico que o primeiro, porém o faz com precisão de um relógio suíço e maior interatividade caso o espectador embarque na brincadeira. O diretor Chad Stahelski entendeu o espírito da coisa muito bem, assim como já havia depurado a linguagem reverencial aos samurais e aos pistoleiros dos westerns spaguetti na construção basilar do personagem, elevando agora o patamar para além das regras do jogo.

John-Wick-Um-Novo-Dia-Para-MatarClaro, este crítico não está fazendo analogias com os games como nenhum demérito, pois há um valor real em se estudar por que um nicho de mercado atual tão poderoso quanto o do entretenimento eletrônico que chegou a ultrapassar a lucratividade de Hollywood não teria conseguido ainda transpor todo o reconhecimento artístico e crítico de sua jogabilidade para a diversão de um longa-metragem. O fato é que, como personagem, John Wick nasce um avatar perfeito para recepcionar toda a adrenalina que o espectador dirige à tela. Na nova história desta continuação é quase como se alcançassem o equilíbrio perfeito entre um agente secreto estilo “Metal Gear Solid” com a mitologia das Deusas e Deuses gregos e todas as suas vaidades humanas de “God of War” para pessoas de vestidos e ternos caros no meio da máfia italiana. Todos os signos estão lá. E John Wick, após a vingança do filme anterior, assim como o personagem Kratos do jogo referido acima ou mesmo Hércules ou Jasão, será forçado a pagar uma dívida de sangue em meio a regras sujas de honra como toda boa política; ou seja, um peão no tabuleiro dos deuses usado contra os próprios, que são tão mortais quanto os homens que manipulam.

john-wick-keanu-reeves-cachorro_emqaAliás, não estranhe também o subtítulo “Um Novo Dia Para Matar”, quase parafraseando o último filme que Pierce Brosnan estrelou como James Bond, pois há também muitos arquétipos aqui referendados para a máfia, para além do fetiche por armas, carros e viagem ao redor do mundo por locações estonteantes. As cenas topográficas das paisagens de prédios nova yorkinos e de ruínas romanas mostram bem o tabuleiro de luzes brilhantes que cegam seus jogadores no microscópio humano.

270831Tudo isso, contudo, não seria nada sem uma direção espetacular, para dar acessibilidade aos olhos dentro deste mundo de violência gourmetizadora, usando-se inteligentemente até do humor para autoparodiar os próprios excessos plásticos. Sim, a velocidade e ultraestilização aqui estão ainda mais frenéticas do que no primeiro exemplar, porque abraça a diversão de quem está na chuva é para se molhar. Se peca em algo, não é pela excelência dos ângulos e edição ainda mais desconcertantes e penetrantes, com tiros e golpes que despertam indubitavelmente reações, mas sim pela repetição de alguns quadros e movimentos, podendo parecer às vezes ceder à mesma piada que já veio uns trinta minutos antes na montagem do quadro maior em prol de não prejudicar o banquete total da refeição. Como se você tivesse de abrir um ou outro pacotinho de ketchup a mais quando poderia alternar para mostarda dijon ou molho pesto. O fato é que segue a fórmula consagrada e na verdade até a resgata, após o desuso injusto dos novos tempos de computação gráfica e super poderes, em retomar a honra da luta corpo a corpo mais dignificante apenas com os chefões para passar de fase, como os bons filmes de ação do tipo “exército de um homem só” à la Schwarzenegger, Stallone ou especialmente Bruce Lee, que usava mais a arte marcial do que necessariamente os músculos ou a pólvora.

Parabéns para cenas que elevam o filme para além da média e colocam a alma e a ética dos ladrões em xeque com as seduções do poder, como no prelúdio que brinca com a máfia taxista de Nova York, desconstruindo o mito do carro em sequências de ação, e, depois, a sequência inteira que começa com toda a elegância em um show nas ruínas para a elite da máfia e acaba com a miscelânea de soldados que compõem a base da pirâmide hierárquica decidindo o futuro dos deuses. Todo o conteúdo metaforizado na complexa mitologia das imagens como não se via esforços tão caprichosos desde “Mad Max – Estrada da Fúria”. E preparem-se para citações a vários filmes de ação famosos e até a “Matrix”, com participação impagável de Laurence Fishburne, e um restante do elenco azeitado como o em geral subaproveitado, mas aqui excelente Ian MacShane (“Deadwood”) e o consagrado Franco Nero (“Django”).

Resta apenas abraçar cada clímax que o jogo pode lhe proporcionar.