José (20° Festival do Rio)

Expectativa frustrada

por

08 de novembro de 2018

“José” de Li Cheng

O filme ganhou o prêmio do Leão Queer de melhor longa-metragem de ficção com temática LGBTQ+ — além de ter sido muito bem recebido por parte do público na 42° Mostra de São Paulo, antes de aterrissar em sua segunda exibição no Brasil aqui no 20° Festival do Rio. Porém, talvez pela enorme expectativa, o filme fracassa retumbantemente perante a ótica deste crítico em todas as propostas a que se debruça.

Em primeiro lugar, é um filme cuja premissa relativamente simples, seguindo um jovem rapaz na Guatemala que precisa cuidar da mãe enferma e possui dificuldades em assumir sua homossexualidade numa sociedade homofóbica, já alcançaria um bom resultado com a escolha inicial de seu diretor em filmar num registro mais naturalista… Acontece que a partir de determinado momento da projeção, o cineasta talvez por se sentir mais seguro começa a arriscar mais e inserir certos dirigismos grandiloquentes em meio à filmagem naturalista, criando contrastes que não combinam nem se encaixam. Alguns exemplos que podem ser dados é uma trilha orquestrada no extracampo em cenas de transição que não pedem por ela e que não condiz com a predominância diegética de priorizar apenas o que acontece dentro do quadro ate então. Outro exemplo são alguns enquadramentos que passam a ser milimetricamente planejados em tons de luz e sombras, exigindo uma proximidade da marcação de cena dos atores em tela cujos diálogos passam a ser recitados de forma engessada sem demonstrar o preparo para esse tipo de exposição cujo calcanhar de Aquiles na atuação até agora não havia de demonstrado pela preferência por planos médios e conjuntos que os filmava apenas à distância.

Quando a pantomima vira mais teatral, a dramaturgia cênica dos protagonistas não consegue segurar o rojão e contrasta com o tom anterior, parecendo encenado de forma exagerada. Tudo bem que é positivo o fato de o longa-metragem advir de uma filmografia guatamalteca rara de se ver nas telonas no resto do mundo, ainda mais sob a batuta de um cineasta chinês, mas talvez o seu lugar de fala de um estranho vindo de fora tenha falhado, inclusive, em captar nuances locais mais ricas do que apenas a trama principal… Sem falar que tudo que é positivo alcançado com a naturalidade com que a nudez e sexo são filmados se torna um pouco desperdiçado pela extrema binariedade com que são tratadas…Às vezes o conflito do protagonista em se libertar ou não da mãe poderia desembocar na mesma história mesmo que o casal fosse hétero, infelizmente…😢

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