Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

Múltiplas personalidades na filmografia do diretor Richard Linklater se encontram aqui.

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10 de outubro de 2016

Richard Linklater é um cineasta que consegue transitar entre a linguagem jovial e a filosofia existencialista, com exemplares em sua filmografia que podem pender tanto para um lado ou para outro, com raros equilíbrios excepcionais, como o premiado “Boyhood”. Agora, ele trouxe uma nova incursão na década de 70/80, período em que ele mesmo foi adolescente, como já havia feito em filme anterior, “Jovens, Loucos e Rebeldes”, que no original se chamava “Dazed and Confused” (1993). Porém, mesmo que a história do novo filme não continue em nada a do anterior, só a reconstituição de época, mudando o cenário hippie para os atletas bolsistas das universidades americanas, o título brasileiro tentou aludir a seu filme anterior chamando-o de “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes”, quando no original os dois filmes não têm nada a ver, chamando-se o novo de “Everybody Wants Some” (2016).

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Claro, Linklater é bem sucedido em termos de criar o clima certo com figurino e direção de arte, sem contar com a ótima trilha sonora. Porém, ao engendrar a apresentação de não poucos, mas inúmeros personagens satélites para o protagonista, o diretor acaba se perdendo em reduzir cada personagem a uma piada só, como se fosse uma sucessão de esquetes agradáveis e divertidas, mas nem por isso necessariamente engraçadas. Aliás, o uso excessivo da trilha de início, com muitas cenas em boates e festas, quase faz parecer que as esquetes são montagens de videoclipes musicais, mesmo que editadas à excelência visual e perpassando por todos os cenários e regionalismos culturais de época só pela história da música (disco, country, punk rock…).

Uma pena, porque percebe-se que o diretor criou um universo intrigante e consegue até certa altura desconstruir bem seus personagens masculinos enclausurados numa casa do Campus da Faculdade com seus hormônios e adrenalina não extravasados. Ao invés de endeusá-los apenas porque sente falta dos bons tempos de escola, ele vai desvelando suas fraquezas e vulnerabilidades comuns a todos, sem falar que brinca com a dicotomia de gêneros, fazendo os homens não estudarem e se revelarem mais quando estão sendo estúpidos e tolos, e as meninas como as inteligentes que os esnobam por quererem algo melhor da vida com a universidade. Tanto que os meninos aqui retratados são vaidosos, prestam atenção nas roupas que usam, checam a si mesmos no espelho, cobrem-se de perfume e cuidam do cabelo. É Linklater brincando de metrossexualidade antes mesmo da palavra existir na época retratada. E a linguagem visual também brinca com isso, como quando as coisas ainda estão dando certo para os estudantes, o diretor filma tudo em closes e câmera lenta, como uma utopia fugaz, para depois, quando mergulha eles em realidades mais duras, distancia o enquadramento tornando-os mais distantes e frios na tela, bem como opõe a caracterização dos personagens do que eles são de dia para o que são à noite, variando a autoconfiança da fachada para a fragilidade do que realmente são.

Quando as músicas começam a ceder espaço para diálogos interessantes, dois novos elementos típicos de sua filmografia começam a predominar, igualmente intrigantes, mas não necessariamente harmoniosos neste exemplar. Um é o romance, egresso de filmes como a trilogia “Antes do Amanhecer”, como o protagonista acaba conhecendo uma garota e se encantando com os longos debates intelectuais no lugar da luxúria meramente corporal até então aludida… E o outro elemento são os diálogos filosóficos, que chegam ao melhor momento na cena em que os jovens compartilham maconha no quarto de um deles. Este tipo de aprofundamento claramente vem de filmes como “Waking Life”, mas que, aqui, parecem um pouco deslocados. No fim, não se parece perceber que tipo de filme Linklater realmente queria alcançar, ou qual de seus públicos gostaria de agradar. Se talvez tivesse apostado mais no lado pop do potencial desta obra, teria ficado com o entretenimento de qualidade que seu “Escola do Rock” tende a representar na vasta e heterogênea filmografia.

 

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (Everybody Wants Some)

EUA, 2016. 116 min

De Richard Linklater

Com Will Brittain, Zoey Deutch, Ryan Guzman, Tyler Hoechlin

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3