Judy

“Não vão me esquecer, vão?” Judy Garland

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13 de janeiro de 2020

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Judy: Muito Além do Arco-Íris acompanha os últimos meses de vida de Judy Garland (Renée Zellweger), alçada ainda precocemente ao estrelato por sua performance em O Mágico de Oz (1939). Agora adulta, deve se contentar com a decadente carreira, ao mesmo tempo em que tenta cumprir com os deveres da maternidade e lidar com seu vício por álcool e medicamentos.

Judy Garland é uma figura indissociável da chamada Era de Ouro de Hollywood. Nascida em 1922, tinha apenas 16 quando deu vida à Dorothy e encantou o mundo com Somewhere Over the Rainbow. De toda forma, como não é estranho à indústria cinematográfica, sobretudo em uma época na qual havia pouca (ou nenhuma) preocupação com atores/atrizes mirins, viveu anos verdadeiramente tristes, vindo a falecer em 1969, aos 47 anos.

Judy: Muito Além do Arco-Íris atraiu bastante atenção pela ótima performance de Renée Zellweger, no papel da personagem título. Nesse sentido, é válido apontar que, fosse a presente crítica baseada tão somente na atuação da atriz principal, os elogios ao longa certamente seriam maiores. Fato é que Zellweger fez por merecer a sua vitória no Globo de Ouro, bem como uma provável indicação ao Oscar de Melhor Atriz Principal*. Ao mesmo tempo, porém, o restante da obra jamais consegue ser algo mais que medíocre.

Há uma carência de urgência na retratação de uma mulher à beira do precipício. Na realidade, o roteiro se contenta com o mínimo, sem jamais se propor a trazer tonalidade à narrativa. Pouco é dito acerca das dores do vício que permearam a vida da protagonista, vício esse imposto por uma indústria que exigia o impossível de uma jovem de 16 anos. Ocorrem flashbacks de seu tempo mais jovem, mas não este é o foco da história. Acerca dos filhos e a inevitável disputa por custódia, essa é apenas trazida à tela na falta de outras tramas, nunca recebendo o peso devido.

Nesse sentido, há algo a ser dito acerca do cinismo geral que envolve a produção de uma obra desse gênero. Isto é, desconsiderando-se as intenções dos envolvidos que, na verdade, acredita-se serem as melhores possíveis, permanece uma problemática intransponível: Judy: Muito Além do Arco-Íris, no final do dia, nada mais é que Hollywood capitalizando em cima de uma tragédia para a qual teve inegável contribuição. Pior, sequer é feito um mea-culpa, ou até mesmo uma menção aos problemas da indústria na época.

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Afinal, se Garland sofreu avanços sexuais inapropriados por parte de superiores, bem como foi forçada à uma dieta insustentável, esses não foram nada mais nada menos que sintomas de uma Hollywood que, tristemente, ainda não se renovou, ao menos não o bastante. Nesse sentido, por mais que haja uma tentativa de alteração do status quo – cita-se, inclusive, o movimento #MeToo – até o momento subsistem diversos problemas a serem trabalhados, com a conivência da indústria como um todo.

E não se diga que a produção do filme compete a um estúdio distinto daquele que a feriu de maneira tão intensa – Lionsgate e MGM, respectivamente – porque o que se discute aqui não é o comportamento individual, mas sistêmico. Isto é, havia, ou melhor, há uma conivência geral dos envolvidos em um modelo que se baseia na ausência de responsabilização sob alegações verdadeiramente genéricas. perpetuando um verdadeiro ambiente de impunidade.

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Dessa forma, a despeito das boas intenções que supomos haver por parte dos responsáveis, a mera de Judy: Muito Além do Arco-Íris acaba por refletir um atentado ao legado da atriz. Vítima de uma indústria acostumada a abusar e descartar mulheres, Garland vê a sua memória violada não apenas em vida como, também, em morte, ao ter a sua história capitalizada pela mesma Hollywood que a destruiu.

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Avaliação Iuri Souza

Nota 2