Júlia Ist

Intercâmbio de ideias

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26 de outubro de 2017

O dia na 41a Mostra Internacional de Cinema de SP começou morno com o longa-metragem “Júlia Ist”. O filme é dirigido e protagonizado por Elena Martín, e a narrativa segue experiências baseadas levemente na vida da realizadora quando fez intercâmbio, assim como sua personagem que viaja para estudar na Alemanha, deixando família, amigos e namorado em sua terra natal na Espanha.

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Com uma câmera tentando emular a naturalidade de um documentário seguindo a personagem, abusa da imagem granulada na Alemanha para explorar que a vida cinzenta sob neve e frio pode parecer confusa e sem foco, mas é o que irá desafiá-la a encontrar a si mesma. Tanto que quando enfim a personagem se encontra de dentro para a fora as imagens por fim encontram a alta definição (HD) com iluminação solar. O problema é que estes desafios repetem um lugar comum já exaurido por inúmeras narrativas recentes sem redefinir algo novo ou escolher um dos temas para se aprofundar.

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Seja a jornada de uma estrangeira em terra estranha e que se apóia na sonoridade com as amigas para fortalecer as personagens femininas, o que parece até certo ponto que irá ocorrer, até fitando talvez um romance entre duas delas, mas não o faz. Questões estas melhor apresentadas este ano mesmo pelo filme brasileiro “A Cidade Onde Envelheço” de Marília Rocha. Como o roteiro deixa de explorar as personagens femininas secundárias, o que até é uma pena, pois a atriz que interpreta a melhor amiga em Berlim rouba todas as cenas, resta aos rapazes do elenco cercear as escolhas e liberdades da protagonista, cheia de dilemas com namorados que ganham mais importância até do que o interessante campo de estudo objeto do intercâmbio: a arquitetura.

Aí, toda a liberdade que se almejava alcançar na personagem-título se esvai condicionada a arcos narrativos dos personagens masculinos não tão interessantes quanto ela. A mesma arrogância da juventude em geral retratada de forma unidimensional. Até se tenta explorar algo com a relação por skype à distância com o primeiro namorado, mas nem isso se aprofunda, bem diferente de filmes que abordaram isto interessantemente como espinha dorsal e deram muito certo, como “10.000 Km”. Até há cenas interessantes mais perto do final, como a da pequena rave improvisada que parece enfim alcançar o pretendido, mas não é o bastante para segurar a atenção a esta altura.