Julieta

O retorno de Pedro Almodóvar ao universo feminino com um drama denso e maduro

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08 de julho de 2016

Após 10 anos sem uma incursão no universo feminino (a última foi em “Volver”), Pedro Almodóvar retorna de maneira mais contida em “Julieta”, vigésimo longa-metragem de sua carreira, porém sem deixar de lado elementos autorais já conhecidos pelo público. Inspirada em três contos da autora canadense Alice Munro, a trama gira em torno da personagem Julieta Arcos (Adriana Ugarte/Emma Suárez), uma mulher de meia-idade que está de mudança de Madri para Portugal com seu namorado Lorenzo (Darío Grandinetti) e tem sua vida virada de cabeça para baixo quando esbarra na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés). De uma hora para outra, Julieta desiste da viagem e se muda para o prédio em que vivia antigamente em Madri, onde começa a escrever uma espécie de carta para a filha que não vê há anos, enquanto relembra o passado.

Ao contrário de outros longas de Almodóvar, não há comédia em “Julieta”, mas um drama denso com toques de suspense, acompanhado por uma trilha sonora marcante e dramática de Alberto Iglesias, que já vem de uma parceria longa com o cineasta. Como em todas as películas de sua filmografia, a mise-en-scène é tão, talvez até mais, essencial quanto os diálogos para se compreender a história – o clássico vermelho almodovariano aparece aqui mais tímido e com menos frequência, mas não com menos força: assim como as respostas para o sumiço de Antía, a cor favorita do diretor está nos detalhes. As cores possuem um papel muito importante nos momentos trágicos da vida de Julieta, bem como seus cortes de cabelo em cada fase da vida.

A câmera de Almodóvar está ainda mais meticulosa ao desnudar a alma feminina, no caso, da personagem-título. Ora no presente, ora no passado, o espectador acompanha a delicada remoção de camadas protegidas pela dor da culpa que Julieta carrega em silêncio há tantos anos, que transbordou de repente e agora precisa encontrar uma forma de lidar com a mistura de sentimentos antes contidos. Adriana Ugarte e Emma Suárez se entregam completa e igualmente ao papel de Julieta, e protagonizam uma maravilhosa uma cena de transição entre duas épocas diferentes da personagem.

Ainda que menos exuberante que longas anteriores, “Julieta” estampa diversos elementos característicos de Almodóvar que evocam, principalmente, as películas “Volver” e “Abraços Partidos”. Este não é somente um filme sobre a relação entre mãe e filha ou os fantasmas do passado, mas sobre perdas, culpas e suas consequências, e perdoar a si mesma (o). Almodóvar não está menos Almodóvar, apenas mais melancólico, o que não é necessariamente algo ruim: basta saber embarcar.

 

Julieta (Idem)

Espanha – 2016. 99 minutos.

Direção: Pedro Almodóvar

Com: Adriana Ugarte, Emma Suárez, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti e Rossy de Palma.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4