‘Kong: A ilha da Caveira’ – Pretensão ou inspiração?

Dirigido por Jordan Vogt-Roberts, longa estreou no Brasil no último dia 09.

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28 de março de 2017

O sonho de todo executivo de Hollywood é encontrar a fórmula do sucesso, mas, claro, não é fácil. É possível repetir exatamente, passo a passo, o que foi feito numa produção que gerou milhões de dólares e o novo resultado ser um fracasso. No meio dessa história, existe ainda a ambição artística dos diretores, que tentam imprimir uma assinatura visual ao trabalho ou pelo menos demonstrar que existiu alguma inteligência nas escolhas sobre o que retratar visualmente da trama. Esse embate vem dos primórdios do cinema, e foi analisado pelo ótimo trabalho de críticos (antes de se tornarem cineastas) como Éric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol, François Truffaut e Jean-Luc Godard, entre outros, na revista Cahiers du Cinéma, na qual resgataram a importância de diretores como Alfred Hitchcock, Nicholas Ray etc. (a lista é enorme). Para essa geração da Nouvelle Vague, o autor do filme não era mais o roteirista, mas, sim, o diretor, uma consciência central cuja visão está inscrita na obra e que trabalha cercada por um grupo de técnicos e atores. O autor, defendiam esses críticos, é quem deixa sua assinatura em um filme, no mise-en-scène, enquanto meteur en scéne é o termo usado para designar o diretor que permanece fiel ao roteiro alheio e não consegue ou não tem condições de impor seu estilo ou personalidade ao filme – tese sugerida por Truffaut.

“Kong: A Ilha da Caveira” estreou no Brasil no último dia 09.

“Kong: A Ilha da Caveira” estreou no Brasil no último dia 09.

E isso ainda não mudou: todo filme feito para ser campeão de bilheteria e gerar uma nova franquia vem acompanhado pelo olhar severo dos produtores, que se preocupam com o que consideram a ameaça de o diretor contratado tornar o filme enfadonho ao querer imprimir seu toque pessoal. A grande maioria desses projetos segue a mesma fórmula: cenas espetaculares de ação com doses de humor para aliviar a tensão, sem muita firula. Com o mundo contemporâneo, de internet, redes sociais e diversas opções de entretenimento ao alcance das mãos, cada vez mais o ritmo da narrativa foi se tornando avassalador – quanto mais tempo para a reflexão e o desenvolvimento de personagens e situações, mais boa parte do público que consome este tipo de entretenimento tende a achar enfadonho. É como se a estética acelerada do videogame se tornasse necessária para a fórmula dar certo.

E aí surge uma questão para os cineastas iniciantes ou que não conseguiram atingir o nível de excelência de um Steven Spielberg em relação à indústria de entretenimento. O eterno Rei Midas de Hollywood já teve a sua cota de filmes que não agradaram ao público e à crítica, no entanto, é inegável que Spielberg é mestre em usar a linguagem cinematográfica com referências a quem ele reverencia, mas com assinatura visual própria. Quem é novato no ramo, mas quer ir além de ser mais um na multidão, muitas vezes vai por esse caminho de inserir em seu trabalho referências a filmes icônicos, prestando seu tributo até mesmo na construção dos planos. Um exemplo recente é o diretor Jordan Vogt-Roberts, responsável por “Kong: A ilha da Caveira”. O longa segue a fórmula batida de ação e humor, com tudo muito rápido (Kong aparece quebrando tudo em menos de 20 minutos de projeção), lembrando um videogame. Enquanto cumpre o esquema formulaico, Vogt-Roberts presta homenagem a “Apocalypse now” (de Francis Ford Coppola) nos personagens e planos.

“Apocalypse Now”: Martin Sheen como Capitão Willard, o nome escolhido para a missão de assassinar o Coronel Kurtz (Marlon Brando).

“Apocalypse Now”: Martin Sheen como Capitão Willard, o nome escolhido para a missão de assassinar o Coronel Kurtz (Marlon Brando).

Com “Apocalypse Now”, Coppola fez o filme definitivo sobre a Guerra do Vietnã, da mesma forma como tinha feito com o “O poderoso chefão” em relação aos gângsteres. O objetivo de Coppola era fazer uma metáfora sobre a loucura e os dilemas morais causados pelo conflito. Apesar de ser brilhante e de evocar com maestria os horrores da guerra, o filme tem excessos e um roteiro sem coesão em certas passagens. Coppola já disse que, em sua busca, retirou elementos de filmes de terror, suspense e aventura – e são justamente esses os gêneros combinados no primeiro King Kong (1933) e que também sustentam “Kong: A ilha da Caveira”. A diferença, claro, está na profundidade do debate proposto pelo roteiro, assim como na densidade dos personagens. Diante do nível sombrio da alma humana que almejava atingir (tema do livro “Coração das trevas”, de Joseph Conrad, que inspirou o filme), Coppola deu nomes simbólicos (basta traduzir) aos personagens que representavam a psiquê humana. O Capitão Willard (Martin Sheen, o ego), escalado para a missão de assassinar o Coronel Kurtz (Marlon Brando, o superego), líder divino, soldado perfeito, mas “amaldiçoado” por suas ações sombrias, e Tenente Coronel Kilgore (Robert Duvall, o id), responsável pela matança generalizada de vietcongues. Esses indivíduos eram uma representação das diferentes reações aos horrores da guerra. Vogt-Roberts homenageia esses personagens em “Kong: A ilha da Caveira”: James Conrad (aqui, até o autor do livro é lembrado, no personagem de Tom Hiddleston) reencarna o Capitão Willard; Preston Packard (Samuel L. Jackson), o Tenente Coronel Kilgore; e Kong, o Coronel Kurtz; e ainda há um tributo ao fotojornalista interpretado por Dennis Hopper em “Apocalypse now”, no personagem Hank Marlow (John C. Reilly). O diferenca é que, no filme de Vogt-Roberts, suas homenagens não possuem a densidade atingida por Coppola: são simples caricaturas.

Gollum, um dos principais personagens da trilogia “O Senhor dos Anéis”.

Gollum, um dos principais personagens da trilogia “O Senhor dos Anéis”.

Para apimentar a discussão, basta lembrar a trilogia “O senhor dos anéis”, de Peter Jackson, e ver que dá para colocar mais densidade num filme voltado para o entretenimento. Jackson também usou as instâncias da psiquê humana na construção dos personagens. O ego, comandado pelo princípio da realidade e fortalecido pela razão, está preso entre os desejos do id e as regras ditadas pelo superego. Em posição análoga, Frodo tentar conciliar as necessidades do Gollum e de Sam durante a sua jornada. O Gollum é o id, responsável pelos impulsos mais primitivos, paixões, libido e agressividade. É norteado pelo princípio do prazer (“my precious”), mas seus desejos são frequentemente reprimidos. Sam é o superego, que seria o ideal do ego e tem a função de conter os impulsos do id. Ele é a bússola moral de Frodo e o impede de ser seduzido pelo anel.

Vogt-Roberts dá a Preston Packard (Samuel L. Jackson) tons do Capitão Ahab de “Moby Dick”, de Herman Melville. Quando Packard usa napalm no confronto com Kong, fica clara a referência a como o exército americano agiu contra os vietcongues durante a guerra – e, também se vê na tela, por mais tecnologia e armas que houvesse, os selvagens esmagaram todas as tentativas. Vogt-Roberts bebe de filmes como “O mundo perdido” (1960) e “O continente esquecido” (1968). “Kong: A ilha da Caveira” ainda tem uma mensagem ecológica, feminista e a favor da diversidade. Vogt-Roberts completa seu leque de referências com “Inferno no Pacífico” (1968), de John Boorman, sobre o confronto entre um soldado americano (Lee Marvin) e um japonês (Toshiro Mifune) que, ao ficarem presos numa ilha deserta remota durante a Segunda Guerra Mundial, precisam aprender a cooperar se quiserem sobreviver.

“O Mágico de Oz”: clássico de Victor Fleming produzido pela Metro.

“O Mágico de Oz”: clássico de Victor Fleming produzido pela Metro.

Em que pese nada ser profundo, todas essas citações são acompanhadas por uma câmera ágil que também sugere uma linguagem visual. Esse é o segundo longa de Vogt-Roberts e ainda é cedo para chegar a alguma conclusão. Para quem está em busca de uma diversão escapista, “Kong: A ilha da Caveira” tem seus momentos divertidos. A questão que fica é se, quando um diretor reúne tantas referências em planos ousados, na tentativa de mascarar a mesmice que assola os filmes do gênero, seria pretensão sua ou uma genuína inspiração. Por outro lado, quando Coppola fez “Apocalypse now”, ele não deve ter pensando no “Mágico de Oz” (1939), de Victor Fleming, ou será que estava em seu inconsciente? O Mágico de Oz conta a aventura de uma heroína, que viaja para uma terra estranha e é adorada pela população local após vencer seu líder e libertá-los. A Bruxa Má do Leste é eliminada, assim como o Mágico e Kurtz (igualmente opressivos e escondidos nas sombras). Enquanto tudo isso roda nos projetores mundo afora, os executivos de Hollywood continuam a procura pelo Santo Graal do sucesso. Talvez esteja em algum lugar além do arco-íris…

Avaliação Mario Abbade

Nota 3