Kore-eda leva doçura a San Sebastián

Ganhador da Palma de Ouro, 'Shoplifters', o novo filme do mestre japonês, é uma das atrações do festival espanhol, que começa nesta sexta

por

20 de setembro de 2018

Uma família de trambiqueiros muda seu modo de ser após adotar uma menina em "Shoplifters"

Família de trambiqueiros muda seu modo de ser após adotar uma menina em “Shoplifters”

Rodrigo Fonseca
Vai ter um lampejo de Palma de Ouro e, San Sebastián, com a exibição do vencedor da láurea mais cobiçada do cinema autoral, na 66ª edição do festival espanhol, que começa nesta sexta: “Shoplifters”, de Hirokazu Kore-eda, é uma das produções garantidas pelo tradicional evento. Vai ser a Argentina quem vai abrir a mostra principal, com a projeção da comédia romântica “El amor menos pensado”, com Ricardo Darín e Mercedes Morán. O Brasil participa da vitrine audiovisual da Espanha com longas como “Los silêncios”, de Beatriz Seigner, e “Ferrugem”, de Aly Muritiba, além das coproduções “Sueño Florianópolis”, de Ana Katz, e “As herdeiras”, de Marcelo Martinessi. Entre as atrações estrangeiras mais esperadas, destacam-se “High life”, de Claire Denis; “Nasce uma estrela”, de Bradley Cooper; “Le cahier noir”, de Valeria Sarmiento; “Dilili em Paris”, de Michel Ocelot; “L’homme fidèle”, de Louis Garrel, e “Beautiful Boy”, de Felix Van Groeningen. Mas nada supera a expectativa em torno de “Shoplifters”, por conta do rigor estético de Kore-eda, hoje um dos maiores nomes do Japão nas telas. O longa também está confirmado para a 42ª Mostra de São Paulo, que ocorre de 18 a 31 de outubro.

“Meus filmes, todos eles, são focados na condição humana, e este não é diferente”, disse Kore-eda ao Almanaque, em Cannes. “Eu acabei sendo rotulado como diretor de folhetins porque passei anos tentando pensar as inquietações afetivas pelo prisma familiar, porém, mesmo nesse terreno do melodrama, eu abordo questões sociais. Mas tento levar para as tramas que construo um olhar sociológico. Foi assim que eu aprendi a fazer cinema: rodando documentários para a TV acerca de dilemas cotidianos de nossa sociedade. O que há de novo aqui é um design de dramaturgia diferenciado, mas no tempo, no tempo da doçura”.

“Shoplifters” acompanha as transformações na rotina de uma família de trambiqueiros e larápios profissionais depois que eles adotam uma garotinha. “Existem formas variadas de formação familiar que não passam por laços de sangue, mas que envolvem algum ideal de honra”, disse Kore-eda na Croisette. “Existe intolerância demais neste mundo. Eu busquei filmar a caridade”.

Hirokazu Koreeda: a estética da delicadeza

Hirokazu Koreeda: estética da delicadeza

A partir de 1995, quando estreou na ficção com “A luz da ilusão”, Kore-eda dirigiu onze longas pautados pela invenção, e fez mais um punhado de documentários e telefilmes. Poucos diretores são mais prolíficos de que ele, laureado com 45 prêmios internacionais por seu feitos nas telas. Ele já foi comparado a um dos mais festejados cineastas de seu país, Yasujiro Ozu (1903-1963), de “Dia de Outono” (1960). Mas ele tem outras referências entre diretores autorais: de um lado, o inglês Ken Loach (de “Eu, Daniel Blake”) e, do outro, seu conterrâneo Mikio Naruse (“Correnteza”), ambos cronistas da luta de classes. “Mas a influência mais ativa em mim eram os filmes com as atrizes Ingrid Bergman, Joan Fontaine e Vivien Leigh de que minha mãe gostava”, disse Kore-eda. “Vi a maioria deles na TV, porque não tínhamos dinheiro para pagar ingressos. Hoje, meus pais já se foram. Eu virei pai. E cultivo as lições sobre as lacunas que ausência de pessoas amadas deixam em nós. A ausência da verdade também gera lacunas”.
Neste momento, Kore-eda prepara um drama em língua inglesa: “The truth”, com Juliette Binoche, Ethan Hawke e Catherine Deneuve num enredo sobre conflitos da maternidade.