La La Land: Cantando Estações

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18 de janeiro de 2017

Com uma filmografia ainda curtíssima, Damien Chazelle, jovem cineasta, é um nome para qualquer especialista ou entusiasta do cinema guardar na memória. Com “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (2014), Chazelle provou o seu valor e o filme, com atributos capazes de transformá-lo em um celebrado cult, voou alto ao fazer uma boa campanha na temporada das mais prestigiadas premiações. Na nova produção assinada pelo prodígio, “La La Land: Cantando Estações”, a perícia demonstrada na cadeira de direção atinge a grandeza, a ponto de ser impossível ignorar qualquer menção ao realizador de apenas 32 anos. Sete Globos de Ouro já foram conquistados pelo filme e a campanha no Oscar promete ser arrebatadora. O longa com roupagem musical — apesar de ir muito mais além de qualquer limitação genérica —, reativa um gênero que trocou o auge das décadas de 1950 e 1960 pela obsolescência nos tempos atuais. Com enredo desdobrado dentro da indústria cinematográfica de Los Angeles, “La La Land” se transforma em uma miscelânea de referências à própria vastidão da Sétima Arte, não se limitando somente ao filão de musicais encabeçados por “Cantando na Chuva” (1952), clássico especialmente decalcado no filme. Quanto a referências explícitas ao universo cinematográfico, por exemplo, o enorme papel de parede com o rosto de Ingrid Bergman no quarto da mocinha, Emma Stone na pele de Mia, bem ao lado da cama onde a personagem sonha durante a noite, compõe com inteligência o contexto no qual a moça está inserida: o de uma aspirante a atriz no caminho, muitas vezes doloroso, da fama.

No comando de “La La Land”, Damien Chazelle encontra espaço e oportunidade, inclusive, para traçar um paralelo com o próprio cinema por ele concebido. Isso acontece quando ele faz do jazz a força motriz de um dos seus personagens centrais — o pianista Sebastian, mais uma bela composição do ator Ryan Gosling. A incansável obsessão pela perfeição do baterista (Miles Teller) de jazz de “Whiplash” é substituída pela obstinação de Sebastian, igualmente infatigável, em manter viva a tradição dessa manifestação artística que, de acordo com ele, está com espaço cada vez mais reduzido por gostos duvidosos. Já que o assunto é música, na melodia de “La La Land” as noções de antigo e moderno bailam em perfeita harmonia. Sebastian, com sua recusa em aceitar influências contemporâneas no jazz de raiz, é a representação perfeita de um passado em processo de esquecimento. Para ele a revolução, que consiste no retorno triunfal do jazz na atualidade, tem que ter o seu fundamento no passado da era de ouro. A própria essência de “La La Land” brinca com essa bem-vinda mistura entre a novidade e o tradicional — um filme com o frescor tecnológico do século XXI, mas com estofo de arte rústica, com toda a dança e a cantoria, evidentemente nostálgicas, típicas das produções musicais de outrora.

Dentro de toda a estrutura onírica erguida com esmero por Chazelle, nasce do romance entre Sebastian e Mia o conflito advindo da realidade da vida a dois, da renúncia de princípios pelo sustento material do casamento, de discordâncias que amargam o gostinho doce do início do relacionamento. Além dos aspectos técnicos, “La La Land” também tem valor por isso — por ser um sonho, mas com os pés fincados no chão, por mais contraditório que seja. O caso de amor entre Sebastian e Mia, já no hall dos mais cativantes casais da história do cinema, não escapa ao choque de realidade que acompanha a espinhosa busca de um sonho. Quando o amor dos dois não sucumbe ao caráter idílico do conto de fadas, “La La Land: Cantando Estações” supera a linda fantasia disseminada pelo próprio filme e evolui até chegar à dureza do despertar. Como resultado, ao fim o espectador acorda do sonho, abre os olhos, mas continua embriagado pela magia do amor verdadeiro, um sentimento lamentavelmente fora de moda.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5