La La Land: Cantando Estações

Crônica sobre a beleza das imperfeições

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18 de janeiro de 2017

“La La Land” do gênio precoce Damien Chazelle (“Whiplash – Em Busca da Perfeição”) realmente surpreende e muito, para além do hype que já está criando com a alcunha de ressuscitar os musicais clássicos de Hollywood.

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Curiosamente, apesar de ser o favorito absoluto aos prêmios da temporada, está dando o que falar com reações diametralmente opostas ou singulares (independente de “Moonlight”, no coração deste crítico, ainda estar à frente por um triz com sua experimentação e linguagem).
Algumas das frases mais ouvidas são:
“Não gosto muito de musicais, mas amei este porque não tem muita música”
“Amo musicais e me decepcionei porque este quase não tem números grandiosos”
“Amo as mil referências aos clássicos que o filme faz”

O fato é que o filme possui qualidades técnicas e referenciais inegáveis a Hollywood Clássica que quebram paradigmas marcantes da década de 2010 até agora, cujos destaques anuais eram mais alternativos e politizados (vide “12 anos de Escravidão” e “Spotlight”, respectivamente, ganharem de seus concorrentes mais blockbusters “Gravidade” e “Mad Max”/”O Regresso”, corrente iniciada quando o azarão indie “Guerra ao Terror” de Kathryn Bigelow ganhou da maior bilheteria da história “Avatar”, do ex-marido de Kathryn, James Cameron). O fato é que “La La Land” resgata uma forma ‘Old school’ de se fazer cinema, mesmo que Hollywood não seja estranha a uma auto-adulação em aclamar filmes que façam crônicas do próprio sistema (como “O Artista”, “Argo”, “Birdman” etc…).

Mas temos de encarar uma obra de acordo com suas potencialidades internas e externas, para as quais foi feita e liberada a um público pensante que irá ressignificá-la.

Até a metade da projeção fica evidente o encantamento com o virtuosismo com que foi filmado: desde travellings (movimento constante de câmera) dentro e fora de quadros estreitos a planos-sequências amplos (ou seja, sem cortes) em cinemascope clássico (widescreen com a janela de projeção estendida). Sem falar na impressionante palheta de cores, desde um arco-íris de figurinos de época à direção de arte, ao uso de iluminação diegética de acordo com emoções e plot twists (reviravoltas de trama). Mas talvez não toque emocionalmente o espectador leigo por si só até este ponto pela frieza técnica da perfeição. Perfeito até demais.

FB_IMG_1484310442152Porém…..o que pareceria apenas uma história simplória sobre casal que resiste a se apaixonar e quando o faz tem de se decidir entre a realização de seus sonhos ou de seu amor, para além de ser filmado com exímia perfeição, cresce para além disso a partir da metade da projeção.
Aí é que está: o filme não esconde que tenta ser perfeito de início, porque demonstra que vai bagunçar tudo logo depois, para dar sentido ao contraste. E não dá pra não se encantar com a enciclopédia referencial de cata-piolhos dos clássicos, que vão desde “Os Guarda-chuvas do Amor” a “Cantando na Chuva”. Parece que estamos vendo Fred Astaire e Cyd Charisse em “A Roda da Fortuna”, sob a luz do poste da praça, sem música, só emoção.
Mas é justamente aí que precisamos chegar: quem disse que o filme é um musical…..? Sim, sim, o marketing o está vendendo assim porque ele é produto de massa e, pra ser produto naquela indústria, há de se encaixá-lo em arquétipos previamente determinados para o grande público.
Mas para a crítica, para os profissionais que irão refletir sobre o filme, não, ele não é apenas isso. É um romance dramático muito bem escrito e travestido de musical. Ele melhora e toca a plateia e faz sentir justamente quando pára de tentar ser perfeito tecnicamente e se suja, e bagunça e pausa a cantoria.

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Só pra desmistificar, a intenção não era fazer um musical de arroubos clássicos com rompantes vocais e repentes dançantes, que até são raros aqui em “La La Land”. A intenção era muito mais de um sólido romance que do encanto do ‘apaixonar-se’ vai caindo na rotina e enfrentando as barreiras dos sonhos frustrados (daí a crítica metalinguística à Hollywood).

E os artistas não serem exímios cantores ou dançarinos é intencional, para botar o pé no chão da usual abstração da realidade dos musicais. Para parecer que qualquer um de nós poderia cantar ou dançar assim quando associamos uma música a um momento de nossas vidas.
Até porque há apenas 5 músicas no filme todo, e elas se repetem e ganham novos arranjos, com destaque para o sucesso instantâneo de “City of Stars”.
E ainda tem o fato de serem dançadas e não cantadas a partir do segundo terço. E nem isso no terceiro arco, bem mais dramático e intenso, com diálogos cortantes extremamente reflexivos sobre a esmagadora ‘indústria de sonhos’ através da crônica da evolução do universo das artes, tanto no cinema quanto na música, o velho versus o novo, o original versus a cópia, a realidade versus o sonho, conflitos estes representados pelo casal principal. Isso sem falar que Ryan está um perfeito Woody Allen se este algum dia houvesse sido jovem e bonito, pois o filme bebe da fonte dos filmes do mestre intensamente, reverenciando homenagens intermitentes a outro clássico idolatrado pelo próprio  Allen: “Casablanca”.

la-la-land_goslingNão há como negar que o filme tenha pequenas imperfeições, como, por exemplo, o casal de protagonistas não saber cantar. Emma Stone, então, nem dançar tão bem, sem falar que este crítico pessoalmente escalaria uma atriz negra, pois um filme embebido em jazz perdeu a chance de ser o primeiro grande romance musical interracial do cinema, apesar de Emma ser bastante expressiva no olhar e ter inegável química com Gosling após 3 filmes juntos.

PORÉM, são as imperfeições, as planejadas e as incidentais justamente o que tocam e aumentam o filme, e nisto ele é um gigante, culminando na apoteótica montagem à la “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” como cereja do bolo ao final.
Deve-se parar com a cultura de discriminar a palavra “imperfeição” e vê-la como uma forma da arte per si também, e como valor agregador. Palmas aos imperfeitos que emocionam, porque são como a vida é.

Grande favorito ao Oscar 2017 nas categorias melhor filme, direção, atriz, fotografia, figurino, direção de arte, canção original, trilha sonora, som e mixagem de som. Além de ter quebrado o recorde de maior laureado no último Globo de Ouro com 7 estatuetas, incluindo melhor filme de comédia/musical, direção, ator e atriz de comédia ou musical.

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5