Laio & Crísipo

Encenação arrebatadora sobre a homoafetividade censurada entre Laio e Crísipo na Grécia antiga

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09 de julho de 2015

Três vitrines/três cabines, que poderiam estar muito bem situadas em uma sala escura – com um buraco para os olhos -, na Grécia antiga, ou em uma rua famosa de um certo “bairro vermelho” na cidade de Amesterdã/Holanda – ícone da prostituição européia no século 20 -, ou até mesmo na Vila Mimosa- celeiro da prostituição carioca – em pleno século 21. Dentro de cada uma das cabines, uma cadeira, e uma personagem: Laio, Jocasta e Crísipo. Acima deles, seus nomes escritos em néon vermelho dá o claro tom de inferninho. Assim é a abertura de “Laio & Crisipo”, que nos apresenta um ótimo cartão de visitas, e nos anuncia, em uma espécie de prólogo, os caminhos por onde irá nos levar a rica e avassaladora encenação. Apresentado no Mezanino do Espaço Sesc, em Copacabana, “Laio & Crisipo” de Pedro Kosovski e direção de Marco André Nunes, que integra o projeto Ocupação Aquela Cia. 10 Anos, é um espetáculo arrebatador, e de se tirar o fôlego, do começo ao fim, devido a qualidade total, e a entrega visceral de toda a equipe. Na Grécia antiga, Laio e Crísipo vivem paixão e sofrimento. O texto é baseado no mito de Laio, o primeiro registro na cultura ocidental de uma obra cujo tema é uma relação homoafetiva. Uma releitura do mito que acompanha a juventude de Laio, futuro pai de Édipo. Em cena, a paixão – condenada pela sociedade – entre Crísipo, jovem príncipe da Frígia, e seu preceptor, Laio, que desemboca num triângulo amoroso com Jocasta.

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Erom Cordeiro como Laio e Ravel de Andrade como Crísipo têm grande sintonia e entrega em suas personagens

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O cenário de Aurora dos Campos, em formato de cabines de strip tease, é um grande achado na direção de Marcos André Nunes

A montagem de “Laio & Crisipo” é dotado de grande refinamento estético, de um texto potente e possante, de uma música contínua com pegadas deliciosas de rock – a trilha musical é executada ao vivo por Felipe Storino e João Paulo, que se alternam em vários instrumentos de percussão e foi especialmente composta para a peça, à exceção da canção There Must Be an Angel, dos Eurythimcs -, e de um trabalho visceral e muito preciso dos atores. Todo o conjunto é arrebatador, e integrado ao todo, com bastante propriedade. É impossível dissociar a bela iluminação de Renato Machado – que se transforma em estado de espírito e personagem, junto com todos os delicados trabalhos que englobam a encenação.  A concepção cênica é altamente transgressora e completamente afiada, e afinada, com a essência grega. Em um período, não muito diferente do de hoje, em que também havia o incesto, pederastia, traição, fratricídios, genocídios, matricídios; e principalmente tramas homoafetivas censuradas na época. Há registros de que Ésquilo e Eurípedes escreveram tragédias sobre o episódio, que não chegaram aos nossos tempos. O texto bem urdido por Kosovski, se passa em um ambiente atemporal, e é alternadamente narrado e vivido com primazia pelos atores.  Em cena, Laio (vivido belamente, com força, verve, sensualidade, masculinidade e sexualidade por Erom Cordeiro) educa Crísipo (Ravel de Andrade em uma atuação magnífica e de impressionante entrega e talento juvenil – um feliz achado) nas artes da luta, da política… e do amor. Uma Jocasta no frescor dos 19 anos (Carolina Ferman em grande pontuação sarcástica, irônica e feminina) forma o terceiro vértice dessa relação. Os três caminham sobre o frágil fio da paixão até que Laio é obrigado a optar pelo casamento com Jocasta, levando Crísipo a um rompimento dramático.

Carolina Ferman tem atuação destacada, feminina e imponente na figura mítica de Jocasta

Carolina Ferman tem atuação destacada, feminina e imponente na figura mítica de Jocasta

Foi uma grata e feliz surpresa ver este belo projeto, e de conhecer pessoalmente a seríssima e competentíssima Aquela Cia. Aguardo com ansiedade a hora de poder ver “Caranguejo Overdrive”.

 

FICHA TÉCNICA

Direção: Marcos André Nunes

Texto: Pedro Kosovski

Com Carolina Ferman, Erom Cordeiro e Ravel Andrade

Músicos em cena: João Paulo, Felipe Storino

Direção Musical: Felipe Storino

Direção de Movimento: Marcia Rubin

Figurino: Marcelo Marques

luminação: Renato Machado

Cenário: Aurora dos Campos

Patrocínio e Produção: Quintal Produções

 

SERVIÇO

Espaço Sesc (Mezanino)

Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana – tel: 2547-0156

Classificação: 16 anos

De 25 de junho a 19 de julho

De quinta a sábado, às 21h | Domingos, às 20h

Duração: 80 minutos

Capacidade: 65 lugares

Ingressos: R$ 20 (inteira); R$ 5 (associados do Sesc) e R$ 10 (jovens de até 21 anos, maiores de 60 anos, estudantes e classe artística)

Funcionamento da bilheteria: de terça a domingo, das 15h às 21h

Pagamento em dinheiro. Ingressos antecipados somente no local.

 

 

 

 

 

 

 


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